quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Notas

Informo que após alguns problemas as notas foram lançadas. Quaisquer reclamações, contactem-me a mim e/ou a secretaria.
Noto entretanto um traço comum nestas coisas: o tempo passa e nós desligamos. Relembro: a qualidade principal de quem escreve - «escritor», «artista» ou «nem-por-isso» - é a teimosia, não o talento. O inferno está cheio de preguiçosos cheios de talento.
Continuo ao V. dispor. O único dia que me desapotou um pouco - por culpa minha - foi o sábado. Estávamos já todos cansados. Mas era (espero) um cansaço bom.
Obrigado. 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Conto de Ricardo Silva - ainda não lido por mim (chegou hoje!)

A farda escura da Polícia do Estado era uma indumentária sóbria e prática. Para Inácio Quiroga, a sua farda representava a lei e a ordem, as duas coisas às quais decidira dedicar a sua vida. Há doze anos que vestia a farda todos os dias e a manhã do seu trigésimo aniversário não foi excepção. Após um pequeno-almoço simples de café e torradas, olhou para o relógio e saiu de casa em direcção à interface de transportes públicos dos Sapadores.
            Já no autocarro, a caminho da sede, aproveitou para observar Lisboa. Era espantosa a forma como a cidade tinha evoluído ao longo dos anos para se tornar naquilo que o lema da cidade - “Cidade nossa, cidade perfeita” - apregoava. Por muito pretensioso que soasse, Inácio não podia deixar de concordar. Tudo estava interligado, desde o complexo sistema de transportes públicos à rede de telecomunicações, como um grande ecossistema.
Chegando ao seu destino, o veículo parou e as portas abriram-se automaticamente. Inácio saiu para o passeio e observou a fachada frontal do imponente edifício da Câmara do Estado. Na mesma rua também se encontrava o maior edifício da cidade, o arranha-céus da Natura ExMachina. O facto da torre da N.E.M. ensombrar a Câmara do Estado era algo que desagradava a Inácio. A imagem de um Estado que governa sob a sombra da única empresa privada da cidade não era de todo agradável.
            Inácio ia embrenhado nestes pensamentos enquanto se dirigia à zona do edifício, reservada às forças da Polícia do Estado, quando se deparou com o Secretário para a Administração Interna. Pôs-se em sentido.  “À vontade!” ordenou o Secretário-geral “Siga-me até ao meu gabiente”. Chegados ao gabinete, o Secretátio carregou num botão da secretária. Os vidros escureceram, e o ruído exterior dos outros agentes deixou de se ouvir. O gabinete estava agora insonorizado. “Capitão, aqui está a sua missão.” disse o Secretário, entregando um envelope cinzento. Inácio conhecia os procedimentos, o envelope cinzento significava que os documentos contidos eram confidenciais e seriam atomizados ao fim de 5 minutos. “Como sabe, o actual Presidente foi raptado pouco depois de confirmar a sua recandidatura para o cargo.” Enquanto fazia esta observação, o Secretário andava nervosamente de um lado para o outro do gabinete. Inácio tomou a inciativa “Se me permite.” O Secretário parou e encarou Inácio. “Diga Capitão.” Inácio já tinha percebido o que lhe estava a ser pedido, mas tinha de confirmar. “Este caso não me pertence, foi entregue a uma comissão destacada especialmente para o efeito.” Desconfortável, o seu interlocutor hesitou antes de responder. “A comissão não tem, nem deverá ter conhecimento da sua missão.” Após alguns instantes de silêncio, o Secretário prosseguiu” “Como também deverá saber a N.E.M. tem feito a cobertura da notícia exaustivamente. A empresa tem sido o único canal de comunicação entre o Estado e os raptores e a responsável por esse canal é Eva Rodrigues dos Santos.” O Secretário baixou os olhos. “Já tentámos obter mais informações através dela, mas recusa-se a responder às nossas questões. Invoca a lei da imunidade dos media. Ainda não compreendemos a recusa em colaborar com as forças que lutam pela segurança do Presidente que mais fez pelos Lisboetas.” Inácio respirou fundo antes de responder. “A não ser que ela esteja envolvida com os raptores...” A cara do Secretário empalideceu. “Por isso é que vim ter consigo. Contudo, não posso concordar com a sua especulação. Eva Rodrigues dos Santos está acima de qualquer suspeita, não se esqueça que é à N.E.M. que devemos as nossas vidas. É à empresa que devemos a maravilhosa cidade onde vivemos. Toda a informação que sai daquele edifício é tão pura como a água que bebemos.” Após este discurso politicamente correcto, o Secretário sentou-se sobre a escrivaninha e num tom mais baixo disse “Desconfio que a jornalista está a ser coagida por alguém. Tenho fortes suspeitas de que mal ela revele a intenção de nos dizer a localização do Presidente será executada. A sua missão, Capitão, é penetrar na torre da N.E.M. e descobrir na base de dados da empresa a informação que Eva está impedida de nos revelar directamente”.
            Mal o Secretário saiu, Inácio abriu o envelope e começou a ler o conteúdo. Nos documento fornecidos estavam os principais sistemas de segurança da torre, os horários dos turnos dos guardas e uma planta do edifício. Quando terminou guardou tudo dentro do envelope que se atomizou automaticamente. Durante o resto do dia desempenhou as suas funções com normalidade, saiu do edifício à hora do costume e apanhou o autocarro habitual para casa. Chegado a casa, olhou para o relógio. Ainda não tinha chegado a altura, Inácio sentia-se inquieto e oprimido pelo lento avançar dos segundos no seu mostrador. Ligou a televisão para ver o noticiário. A figura sorridente de Eva Rodrigues dos Santos inundou a sala. Noticiava os últimos desenvolvimentos do caso do rapto do Presidente. Os raptores ainda não tinham feito nenhuma exigência e o dia das eleições estava cada vez mais próximo. No parlamento já se discutia a hipótese de realizar as eleições sem um dos candidatos. Novamente passaram as imagens do presidente em cativeiro, rodeado pelos seus captores. As vozes distorcidas digitalmente e partes da imagem estavam censuradas. Enquanto via o noticiário, Inácio revia mentalmente os objectivos da sua missão. Seguiu-se a notícia de um novo avanço científico atingido pela Natura ExMachina e após esta, várias notícias de menor importância até ao final do programa. Inácio detestava a televisão, tudo era tão rápido, a sucessão de ideias a uma velocidade louca não deixava tempo para reflectir sobre elas, o seu raciocínio era constantemente interrompido pelo sorriso de Eva.
Quando o relógio apitou, meteu a pistola no coldre, fixou o bastão eléctrico no cinto e vestiu o casaco da farda. Saiu de casa e dirigiu-se a pé para o enorme edifício que dominava a paisagem da cidade. Inácio parou à frente da torre. Falhara nos seus cálculos, o turno ainda não mudara. Para ocupar o tempo foi até ao parque mais próximo e sentou-se num banco próximo do monumento mais importante da cidade, o magnífico Memorial ao Mundo Perdido. Nesses instantes em que observou o monumento, perdeu-se nas palavras que o cobriam e relatavam a história da Nova Lisboa.
A cidade onde vivia era o projecto mais arrojado alguma vez feito pelo Homem. A inspiração tinha vindo de uma experiência feita entre 1991 e 1993, em que um grupo de investigadores de vários ramos da ciência se tinham isolado numa estufa de 17.000m2 com o intuito de descobrir, num ponto mais pequeno, como criar um ecossistema artificial que funcionasse de forma equilibrada e perfeita, em que a variável conhecida como Caos fosse neutralizada. Por outras palavras, procuravam uma forma de emular um sistema ambiental semelhante ao da Terra, mas controlável – o intitulado “Projecto Biosfera”. No caso de Lisboa o objectivo foi diferente, consistiu em criar uma cidade isolada do resto do mundo em que o homem pudesse viver. As obras concluíram-se com sucesso, a engenharia humana testemunhava um enorme triunfo. Uma cidade que oferecia conforto, ecológica, prática, funcional e sem desperdícios. Construída sob várias cúpulas interligadas entre si, era abastecida por robots que trabalhavam em campos de cultivo anexos e que formavam um anel em volta da cidade. Após a sua conclusão, a cidade de Lisboa foi considerada o expoente máximo da engenharia humana do final do século XXI. Enormes espaços verdes para conforto dos habitantes, casas esteticamente belas e sem desperdício de espaço, instituições com os mais avançados equipamentos tecnológicos para investigação científica. Entretanto, uma pequena sucursal da grande empresa mecenas deste projecto, a Natura ExMachina, ficou encarregue de gerir os serviços da cidade. Foi neste contexto que se iniciou a re-colonização de Lisboa, após vários anos deslocalizada para  uma zona periférica. Em pouco tempo a cidade preencheu as vagas de população que necessitava.
 Como acordado, a N.E.M. foi passando gradualmente os organismos da metrópole para o Estado, desde fábricas a órgãos de soberania.
Um dia, subitamente, as portas da cidade selaram-se. Em poucos minutos a N.E.M. anunciou o sucedido. Um ataque terrorista de proporções mundiais. Em todo o mundo milhares de obuses explodiram, libertando para o ar um novo vírus geneticamente modificado e extremamente contagioso. Felizmente a cidade estava isolada e a informação viajou mais depressa que o vírus. O Apocalipse tinha chegado e dizimado o resto do mundo. Lisboa tinha sobrevivido, mas a partir daquele momento passou a ser o último lugar do mundo onde a Humanidade existia.
Embora a vida não fosse tão luxuosa como dantes, era bastante agradável. A cidade prosperara, a Natura ExMachina controlava agora apenas parte do sector de investigação científica e os órgãos de comunicação. Foi criada uma nova rede de informação para substituir a antiga Internet. O monumento tinha escrito tudo isto sob a forma de um friso que crescia numa espiral em direcção ao céu, suportado numa maqueta da cidade que, por sua vez repousava sobre uma superfície curva que invocava a terra.
Inácio olhou para o relógio. Aproximava-se a hora do render dos guardas. Levantou-se e foi em direcção ao edifício da N.E.M.. No local passou logo à acção, surgiu por detrás de um guarda e com um golpe rápido e seco com o bastão eléctrico deitou-o por terra. Retirou-lhe a identificação que colocou sobre a sua farda. Tudo correu como previsto. À porta cumprimentou os guardas, e ocupou no edifício o local de vigia. Não esperou muito até a torre mergulhar no completo silêncio. Cuidadosamente observou o cenário à sua volta. Havia câmaras, detectores de calor, som e movimento, o chão estava repleto de detectores de pressão. Se Inácio pisasse o chão fora do local do seu posto de vigia sem ter accionado manualmente o alarme, este soaria de qualquer modo, denunciando a sua traição. Sem outra escolha, Inácio saiu do seu posto. De repente o corredor encheu-se de fumo e soou o alarme. Em poucos segundos todos os guardas, incluindo Inácio, tinham colocado os visores termográficos. A confusão inicial depressa se transformou numa caça ao homem.
A certa altura um grupo de guardas deu o sinal de que tinham localizado o invasor. Inácio estava cercado. Sacou do bastão eléctrico e da pistola mostrando a sua intenção de que mataria se fosse necessário. O primeiro guarda atacou de bastão em punho, a arma vibrou rente à cara de Inácio que se tinha desviado de modo a defender o ataque vindo de trás. Os guardas tinham guardado as armas de fogo, como estavam em círculo qualquer tiro disparado poderia acertar num colega. Inácio varreu com o bastão uma vasta área acertando em alguns guardas e imobilizando-os com a descarga eléctrica. De todos os lados choviam ataques. Inácio girava sobre si próprio, saltava, dobrava-se, fazendo os possíveis para não ser atingido. Com o bastão estocou um dos guardas e, usando-o como aríete abriu caminho por entre o cerco que lhe tinham feito. Mal se viu fora do círculo de guardas correu a toda a velocidade para a sala de arquivo. Mal soara o alarme os andares foram todos selados, mas Inácio previra isso ao colocar-se no andar dos arquivos.
A toda a velocidade, perseguido de bastante perto pelos guardas da N.E.M., percorreu todo o corredor de encontro à porta da sala dos registos audiovisuais. Sacou da pistola e apontou para quem o perseguia. “Para trás…” Arfou. “Não me obriguem a disparar!”
Inácio precisava de ganhar tempo para que o descodificador que ligara ao painel de abertura da porta conseguisse forçar a entrada. Os guardas que o perseguiam puseram-se em posição de disparar. “Se dispararem levo-vos comigo!” Avisou abrindo o casaco e exibindo a carga de explosivos falsos que fingiu activar. Seguiu-se um momento de tensão. Por breves segundos tudo ficou em silêncio, apenas o bater do coração se fazia ouvir. Os números corriam na máquina ligada ao painel de abertura da porta. Os guardas puxaram o gatilho, as balas voaram no momento em que a porta abriu, Inácio saltou para dentro da sala. Quando caiu do lado de dentro agarrou-se à perna, tinha sido atingido de raspão, mas a visão que teve de seguida fê-lo esquecer tudo.
À sua volta, prateleiras e prateleiras armazenavam pequenos cartões de memória. Ao centro da sala, uma esfera com uma ranhura projectava os registos. Os olhos de Inácio percorreram as prateleiras excelentemente organizadas por temas e datas, encontrando sem a mínima dificuldade o que procurava - Santos, Eva Rodrigues dos. “Reportagem – Rapto do Presidente”. Televisão de Lisboa. Lisboa: N.E.M., 25/10/2129”. Inseriu o cartão no mini-PC e enviou via Intranet para o Secretário da Administração Interna. A sua missão estava cumprida, bastava-lhe esperar que abrissem a porta e depois o prendessem. Era um pequeno sacrifício que ele não se importava de pagar pelo sucesso da missão.
Do lado de fora os acontecimentos também se iam desenrolando. “Senhor, ele barricou-se dentro da sala de registos. Quais são as suas ordens?” Perguntou um dos guardas. “Abram-na!” Respondeu uma voz idosa do outro lado do intercomunicador. “Mas durante o tiroteio danificou-se o painel de abertura, senhor. Devemos explodir com a porta?” Perguntou o guarda hesitante. “NÃO!” Gritou a voz. “Podem danificar os cartões de memória. Vou mandar uma equipa para fazer um buraco na porta.” Disse a voz decidida. “Mas senhor isso vai demorar tempo, não seria melhor…” O guarda, apressado insistiu. “Tenente, aquela sala só tem uma saída. A mesma porta por onde o invasor entrou.” O intercomunicador desligou-se.
A sala dos registos iluminou-se em tons azulados. Inácio ligara a esfera no centro da sala, já que iria ficar fechado na sala aproveitaria para visualizar alguns registos. Atrás de si a porta era cortada a laser. Indiferente ao que se passava, escolheu a inauguração do memorial às vítimas do vírus. As imagens daquele dia projectaram-se no ecran. O Presidente da altura puxou um cordão e a estátua revelou-se ao mundo. Cerca de uma centena de pombos do mais puro branco foram libertados em direcção ao céu limpo. Inácio esfregou os olhos. Fez a imagem andar para trás e pôs a cena a correr outra vez. “Céu?” Inácio nunca tinha visto o céu ao vivo, a cúpula da cidade tapava-o. Agora que lhe olhava com atenção, nem as ruas lhe apreciam as mesmas. As imagens que viu de seguida confirmaram as suas suspeitas. Um grande plano mostrava agora a cidade do lado de fora da cúpula. Inácio verificou de novo a data do registo. Não havia dúvida, já tinham passado quatro meses depois da notícia do ataque terrorista. “Impossível.” Murmurou com a voz rouca do choque. “Impossível. Estas pessoas supostamente deveriam estar já mortas com o vírus”.
Foi então que Inácio percebeu tudo. Na sua mente, ligou todas as peças do puzzle, a conclusão formou-se, resultando numa grande espiral semelhante à do Memorial ao Mundo Perdido. Alguém pusera em práctica o plano mais sinistro da história da Humanidade. Algo tão simples e com proporções tão grandes. Era tudo mentira! Do lado de dentro da cidade  disseram que existia um vírus do lado de fora. Do lado de fora as pessoas foram informadas de que o vírus estava dentro da cidade. Um círculo perfeito! E só uma instituição teria os meios e a capacidade para executar um plano destes: A Natura ExMachina. O veículo de toda a informação, a N.E.M. insistiu em ficar com o monopólio da informação para que a verdade nunca fosse descoberta...
Inácio caiu de joelhos, sentia que a cabeça ia explodir. Como é que a verdade permanecera escondida tantos anos? Lágrimas escorreram pela face de Inácio no momento em que a porta caiu. Um homem idoso, vestido com um fato branco, entrou calmamente. Inácio Quiroga não conseguia parar de pensar nas famílias separadas, nos amigos perdidos, nas vidas destruídas, no tempo que tinham perdido, isolados do mundo. Apenas uma pergunta ecoava na cabeça de Inácio: “PORQUÊ?” O homem idoso pôs-se de cócoras ao lado de Inácio e sussurrou gelidamente: “Poder.” Inácio levantou-se, novamente chocado.  À sua frente estava o presidente da Natura ExMachina. Sim, fora ele! Que outra pessoa poderia querer controlar em pleno uma cidade inteira. O presidente de uma pequena sucursal que pretendia fugir do controlo da empresa mãe, mas manter o acesso aos vastos recursos desta permitindo a ascensão vertiginosa de pequena empresa integrada numa grande multinacional a entidade controladora de toda uma cidade. Vinte e quatro horas por dia, a N.E.M. influenciava subtilmente a opinião da cidade através dos jornais, da televisão, da publicidade. Apenas os livros que fossem do agrado da instituição eram publicados, já que eles eram a única editora de relevância. Mas supostamente deveria haver uma figura que fizesse frente ao domínio da empresa, alguém que impedisse a N.E.M. de controlar a cidade. O Presidente! O homem que defendia que deviam existir mais canais e mais editoras, o que prometera, se fosse reeleito, que iria criar um órgão do governo responsável por transmitir a informação dos ministérios. Agora percebia o motivo do rapto. A mão de Inácio agarrou o bastão eléctrico e num impulso levantou-o acima da cabeça e preparou-se para desferir um golpe na figura diante de si. Ao mesmo tempo uma voz idosa, a do verdadeiro Presidente da N.E.M., soou pelo intercomunicador. “Mata-o!”, ordenou. “Claro, um fantoche!” pensou Inácio, antes de uma bala vinda de trás entrar no seu crânio perfurando-o de um lado ao outro.

                                                    ***

No dia seguinte nenhum corpo deu entrada na morgue. Nenhuma notícia referiu que a torre tinha sido assaltada. O registo que Inácio pagara com a vida para ser enviado não chegou ao seu destinatário. Inexplicavelmente, a Intranet teve um erro no servidor precisamente no momento em que Inácio entrou na Sala dos Arquivos. Os guardas presentes durante o incidente foram proibidos de divulgar o sucedido. Mas o Caos é uma variável omnipresente que não pode, como a N.E.M. desejava, ser neutralizada. E neste caso, o Caos manifestou-se na forma de um boato que foi ganhando forma e que de boato rapidamente passou a ser uma lenda urbana.
A Natura ExMachina não podia prever o futuro, mas no futuro teria de lidar com algo maior, que definitivamente fugia ao seu controlo. Esse algo tinha um nome. Chamava-se Humanidade.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Avaliação e info

Meus caros, vou estar ausente - embora me possam enviar contos por mail - do país, em serviço.

1. As notas dos que até à data tiverem entregue os contos serão lançadas dia 21 de Outubro. Se alguém tiver real urgência, e para quem essa data seja calamitosa, diga sff. Até à data, ainda há pessoas que não entregaram o conto. E, depois, não consigo ler tão rápido como desejaria. O trabalho de edição é moroso, a atenção não vem como nós queremos (tal como a inspiração), há outras tarefas, etc.

2. Quanto ao critério de avaliação: como disse, valorizo mais o trabalho do que a performance. Por isso, as pessoas cujos contos estão generosamente expostos aqui no blog merecem o nosso aplauso e, «in my book», estes estão excelentes. O equivalente ao 18, por conseguinte, que era como no meu tempo se classificava a excelência. As minhas críticas aos textos não têm por fim apontar «erros», apenas fornecer um instrumento de trabalho complementar dos exercícios que foram feitos e apresentados em aula.

3. Como eu disse: o método funciona. Mas não substitui a pessoa. Apenas nos ajuda a perceber mais para onde queremos ir, podemos ir, desejamos ir. E como tentar (tentar!) lá chegar.

4. O deus dos escritores é o mesmo que o dos médicos, dos assistentes sociais, dos professores: Sísifo, o que foi condenado a quase chegar com o rochedo ao cimo da montanha mas, quase lá, ela rolar de novo encosta abaixo. E no entanto Camus avisa: «É preciso imaginar Sísifo feliz!»

5. Obrigado pela vossa paciência e atenção, peço desculpa por algumas repetições, sobretudo no último dia, sábado, que não correu tão bem como eu esperava e foi particularmente mal gerido.
Mas, afinal, os terceiros actos (os fechos) são sempre difíceis de manobrar.


quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Revisão 5: Sónia Bártolo: Abraçando Leonardo

Veredicto: Gosto da ideia. É triste. Todo o conto vive da tensão de irmos descobrindo a personagem aos poucos. E, mesmo no fim, o texto é ambíguo: a mulher é louca? Quem perdeu? Adulto ou criança? Mas, para mim, é obscuro em pontos onde não tem de o ser. Pelo contrário: quando mais detalhado e visual (e fácil de seguir) for o ambiente à volta, e os movimentos dela, melhor.
Eu revia o texto tornando mais clara a escrita. Sem estragar o mistério, mas evitando obscuridades que não são poéticas nem sugestivas, apenas confusas e de sintaxe duvidosa.

Abraçando Leonardo. Título não precisa de ponto
           
            De vez em quando dava-lhe para aquilo. Se não estava muito frio, ia. [Evitar rima:]
Vestia/punha um casaco e enfiava uns óculos escuros, dos que escondem a cara, e ocupava um lugar. De preferência ao sol.
            Inicialmente não conseguia evitar olhares mais atentos ou mesmo perguntas incómodas. Agora não, já ninguém ligava.          Nos dias em que aparecia era já parte do espaço de tanto que se tinha fundido nele.
Ela. As papeleiras cobertas de autocolantes a informarem-nos [de] que era possível limparem-nos a chaminé sem nos sujarem a casa ou que nos montam toldos em 24 horas. Orçamentos gratuitos. [Não percebo o que tem o parágrafo a ver com a 1ª frase.]
Ela. Os bancos de ferro e madeira ripada onde canivetes juraram amor eterno. João, I love you.
Ela. A máquina que engolia moedas em troco de papelinhos sumidos. Carcavelos-Cais-do-Sodré. [Este três parágrafos têm força poética mas narrativamente são esquisitos e pouco eficientes.]
            Ela, ali parada.
Ganhara já a indiferença alheios.
Os pedintes e a ciganita encardida que impingia pensos rápidos já não a assediavam. Ser alienada conferia-lhe estatuto de intocável e [ela] gostava disso.
            Um ou outro jovem com espírito de missionário tentara em vão a cruzada. [?? Eu chego lá… Mas não devia ter de me esforçar.]
Que ninguém a perturbasse na sua concentração. Que ninguém lhe embotasse os sentidos. [Que ninguém lhe embotasse os sentidos?]
            Tinha muito [em] que pensar. Organizar-se. Refazer mentalmente vezes e vezes sem conta todo o percurso. Ajuizar qual a maneira melhor e mais rápida maneira de lá chegar. [Muito bem: já tivemos a informação de que ela é excêntrica, agora temos a de que quer ir para algum lado. O ritmo está bom. A escrita é que see esforça demasiado por ser «poética».]
            Havia muitos comboios e muitos horários. Uns exigiam transbordo. Outros eram directos e deslizavam arrebatadoramente entre destinos sem acalmia, arrastando tudo à sua passagem.
            Qual o melhor percurso? Que comboio escolher? E o que devia vestir? Estaria bem assim?
Talvez devesse ir antes primeiro  ao cabeleireiro. [para não parecer que é antes no sentido de alternativa]Ele gostava de a ver com o cabelo bonito, arranjado. “ -De seda, mãe”, como costumava dizer quando era pequeno.    [Muito bem: aqui parece quase revelar o mistério. Mas depois no fim volta a dúvida, e não acho que haja razão para isso.]
Passou-lhes os dedos. [A quem???] Estavam crespos, espigados, com brancos tortuosos a evidenciarem-se aqui e ali.  Para onde fora a seda? Tinha que a recuperar. Não podia deixá-lo vê-la assim. [Seda? Há cabelos sedosos, mas o leitor que eu sou nunca ouviu falar que tenham seda…]
Inquietava-se. Tremiam-lhe as mãos ao toque na seda ausente.
            E se ele não gostasse de a ver? Ou se não estivesse lá e ninguém soubesse dizer-lhe a sua nova morada? Iria em vão? [Agora parece de novo um homem, não um filho… E já era altura de o leitor saber que idade tem esta mulher: 30, 40, 50, 70 anos? Como posso eu seguir visualmente a história se não consigo imaginá-la?]
Havia momentos em que não sabia o que fazer. Outros em que estava certa que tinha que de ter de ir ao seu encontro, mesmo assim, sem avisar. Também não sabia como o fazer, não tinha como. E ele também partira sem qualquer aviso. Era justo que fosse então assim.
            Lembrou-se de flores. Podia levar-lhe algumas. Alegres. Ele sempre as apreciara. Amarelas, como as que ele próprio tantas vezes lhe trouxera nos dias em que o calendário escolar assim o ditava. [Eliminei o parágrafo: são a mesma ideia.] Inicialmente vinham com cartões cheios de corações incertos preenchidos a lápis de cera e com letras tortas, desenhadas a custo, cheios de erros. Depois os erros e os corações despareceram e as letras tornaram-se cada vez mais idênticas às dos jornais e depois acabaram mesmo por desaparecer de todo. As flores deixaram de precisar de legenda e um beijo rápido depositado na testa, fizera a vez daqueles. [Ok: aqui começo a pensar que é uma mãe idosa que tem mesmo um filho real e vivo, só que ele não fala com ela há anos. Se sim, porquê?]
            Sim, levar-lhe-ia flores, mesmo correndo o risco de ele achar excessivo ou embaraçoso até. Talvez as suas flores também dispensassem legendas e assim não tivesse que dizer muita coisa. Justificar-se, pedir-lhe perdão por ter demorado tanto tempo.
Estava assente. Cabeleireiro e flores amaciariam a sua chegada.
Agora só faltava escolher o comboio certo e tomá-lo. O que fosse mais rápido, sem transbordos, nem paragens. [Esta frase com este «Agora» muda de andamento, como que a entrar no acto III, certo?]
Levou a mão ao bolso das calças [todo este tempo pensei que ela estivesse de saias – uma mulher que vai e folheou o horário que já se havia moldado à sua nádega. Deteve-se em cada linha. Hora e minuto da partida. Hora e minuto da chegada. 
O das 11:34h pareceu-lhe bem. Em Carcavelos. [?? O que tem isto a ver? Tem de fazer sentido para o conto] Olhou para o relógio que pendia sobre a cabeça das pessoas e avaliou. Se se despachasse, ainda dava tempo, achava.  
            Levou a outra mão ao outro bolso. Quanto custaria devolver a seda aos seus cabelos? Não pretendia nada de especial. Queria apenas a seda de volta, na secreta esperança de que ele lha afagasse.
            Levantou-se e saiu da estação. Em passo rápido atravessou a rua, andando um pouco para a direita e perdeu-se de vista numa perpendicular. [Pode uma pessoa «perder-se de vista»? Eu perco os outros de vista, mas não a mim…]
            Entrou  [Onde?] e enquanto esperava que alguém se dirigisse a si, deteve-se nos cartazes em que autênticas sereias dos tempos modernos ilustravam que tinham  [algo mais simples, tipo: exibiam um] cabelo à prova de tudo e como eram felizes assim. Apenas algumas gotas de um sérum qualquer a cada lavagem e todas podiam ser sereias. E felizes!
            Foi atendida. [Só agora percebo que entrou num cabeleireiro…] Queria apenas lavá-lo e que ele ficasse sedoso, bonito. Como uma sereia, brincou.
Hidratação profunda? Sim, podia ser isso, desde que fosse para já. Não tinha muito tempo disponível.
            Sentou-se e deixou que umas mãos treinadas lhe engolissem o cabelo para pouco tempo depois o regurgitarem como novo.
Hidratação profunda. Era uma sereia.
Os anos não a deixavam ser uma das ninfetas dos cartazes, mas a seda voltara em forma ondulada, a lembrar Leonardo com os seus quatro, cinco anos a adormecer com os dedos enrolados nos seus cabelos, desenhando canudos. [seus dele/seus dela…]
            Foi bom voltar a senti-lo [o cabelo] sedoso, como que num prenúncio de que o encontraria e [de] que ele voltaria a fazer desaparecer os dedos nos seus caracóis. [Ela tinha caracóis??? Diz-me isso no fim do conto?]
            Regressou à rua e estugou o passo, olhando para a estação. Antes porém de desaparecer na passagem subterrânea, parou na florista, que o era até chegar Novembro, altura em que cravos, rosas e margaridas trocavam de lugar com as castanhas e com as folhas das páginas amarelas. Vá pelos seus dedos. [Gosto deste parágrafo]
            Margaridas amarelas. Um molho. Não era preciso mais verdura, assim estavam bem, bonitas, simples e envoltas em papel pardo.
Renunciou ao troco, entregando-lhe [a quem?] todo o dinheiro que possuia no bolso.  “Felicidades”, gritou-lhe a mulher, em pregão. Agradeceu de forma sentida. Era isso que buscava: a felicidade. A felicidade de voltar a abraçar Leonardo. [Bom]
            Entrou derradeiramente na estação.
Apertou as flores contra si como se elas fossem já o corpo dele.
Virou os olhos para o pendente que denunciava as horas e confirmou que estava quase. Faltava já muito pouco tempo. Brevíssimos minutos e chegaria o seu comboio.
            Compenetrou-se, sentindo por segundos a boca seca e os lábios a colarem-se-lhe aos dentes. Engoliu em seco, inventando saliva que não tinha. Fechou os olhos e inspirou demoradamente.
Foi então que VÍRGULA segundos depois VÍRGULA começou a ouvi-lo a aproximar-se e estremeceu. Nunca tinha atentado que faziam tanto barulho. [Quem?] Seria aquele que fazia mais, anunciando-lhe ser o seu comboio? [Agora já não quero saber. Era atrás, na frase anterior, que me devia dar esta informação.]
            Posicionou-se naquele que lhe pareceu ser o melhor lugar para o aguardar e avistou-o logo a devorar os carris a uma velocidade lancinante, chegando num instante junto de si. [Só os atletas se «posicionam»…]

            Foi então, que sorrindo e pensando apenas em Leonardo, ensaiou o voo, abrindo os braços, e avançando por entre gritos de transeuntes e um mar de pétalas amarelas, foi abraçar o monstro de ferro, que chiando, tudo devastava à sua passagem...

            A ciganita dos pensos ainda a ouviu gritar um nome comprido, que não sabia reproduzir!       [Sugestão alternativa: A ciganita dos pensos ainda a ouviu gritar um nome comprido que, quando a polícia veio, não soube reproduzir.]  


                                                                          




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Revisão 4: Vasco Oliveira: (zinha)

Veredicto: 
1) o parênteses não fechado é um dispositivo original, eu pelo menos nunca tinha visto. A questão é: serve para quê?
2) o tríptico não «cola» muito bem. Como lhe disse, acho a parte da aula a mais bem conseguida. Mas você pode aqui ter o embrião de um texto mais vasto, onde vá tratando o mundo vazio de uma professora que vive sob o peso do «sacrifício» e da mãe.
3) A «santidade» é aqui - suponho que é essa a ideia - uma canga, um peso, uma falsidade. Isso é bem sublinhado pelos diminutivos, pela história de horror que é a vida ddesta personagem. Mas não se percebe beem em que é que esta vida é tão terrível. A mãe é beata, o pai morreu cedo? E daí? Não é claro para mim o que há de tão terrível nesta mãe velha e chata. Parece-me um cliché que você imagina mas não conhece. Estou errado? 
4) Não gosto de títulos tipo Mãe(zinha). Prefiro zinha ou mãezinha, Já tiveram o seu tempo. Onésimo Teotónio Almeida fez isso - (Sapa)teia Açoriana, de há 20 anos - e não faz o meu género. Nos anos 70 muita poesia tinha isso. Eu gosto de parênteses, mas prefiro a escola José Gomes Ferreira: o parênteses à volta de palavras ou frases, não (a)parecimentos ou ment(ira)s...
5) Lobo Antunes é excelente para um leitor mas perigoso para um escritor. Aproximamo-nos dele e queima, somos arrastados para o glosar, porque aquela respiração quase rio é mesmo sedutora. Eu também tenho muita tendência para escrever assim. O problema é que Lobo Antunes é melhor a fazer aquilo do que eu. Então prefiro afastar-me. 

Resposta do Vasco: 
1) Quanto aos pontos que enunciou:
2) O parênteses em aberto é um artifício estético que há algum tempo atrás arranjei de forma a delimitar o início e o final das linhas de raciocínio. Essas linhas traduzem-se na repetição interior de uma afirmação/pergunta sucessivas vezes, até que na última delas a personagem em causa se vê forçada a responder/comentar essa mesma afirmação/pergunta confrontando-se com a sua realidade, daí fechar o parênteses em vez de o manter aberto.
3) O objectivo do conto ser tríptico é somente para dar uma noção mais precisa tanto do passado como do presente da personagem nos três pontos fulcral de vida, Familiar, Amoroso e Profissional. No entanto, claro que concordo que a história tem "sumo" para bastantes mais páginas.  
4) Os títulos, foram colocados com esses (zinho)/(zinha) por pura referência ao título do conto.
5) Reconheço em António Lobo Antunes um dos meus ídolos literários e, por vezes, é árduo desligarmo-nos desses ídolos. Não que o copie como é evidente, foi apenas uma influência. 

E AGORA O CONTO: 

Mãe(zinha).  Título não precisa de ponto final.
                São dez da noite. Deitei a mãezinha faz quarto de hora. Desde que a cova nos levou o paizinho que [vírgula, evitar a sobredose de quês é sempre bom] deitá-la se tornou-se meu hábito quotidiano, talvez para lhe amparar o lugar vazio que restou no desmedido leito de cinquenta e oito anos de próspero matrimónio. Escada acima a levo pela mão trémula que o cardápio farmacêutico diário não lhe resolve, pobre mãezinha, e degrau a degrau vamos varrendo as mais longínquas recordações do paizinho, como se lhe políssemos a lápide. [a mão trémula que o cardápio farmacêutico diário não lhe resolve? Rebuscado, mas pronto, vai informando o leitor da voz da narradora.]
                ( me importo, sou uma Santa.
Ele longe galgando destemido meio Atlântico em demanda por esse Ultramar perdido, tão rendido às nossas saudades que ia fixando o recorte fotográfico retangular que perpetuava o nosso retrato de família imperturbavelmente feliz, afundando-se nos nossos olhos quietos de papel tingido na esperança que não fosse o Vera Cruz naufragar-lhe a memória. [Rebuscado e desnecessariamente complicado.] Ele são e salvo, mais vivo que nós duas que de morte lenta sofríamos por não darmos com o seu regresso, enquanto meu irmão ensaiava diversões de menino ausente do concreto pelo vasto roseiral desta casa tão majestosa para a época. [Idem…] Ele que nunca se embriagara de amores alheios à aliança do anelar esquerdo [?!?], que era figura de Santo de carne e osso e mentiria quem dissesse o contrário. Sempre ele, o paizinho, louvado a cada passada até ao último dos degraus em que o esforço pelos setenta e seis anos de calvário absoluto por ter sacrificado uma vida para me poder ter tido lhe cansa as varizes, pobre mãezinha, e arfando bem segura ao corrimão de metal reluzente, me abrevia tudo o que a escadaria foi adiando a cada degrau  [Entendo o barroquismo e as perífrases, mas não faz o meu género]
                – Não imaginas a falta que o Santo do teu pai me faz, minha rica filha. Que o tenha Deus em eterno descanso.   [Logicamente o ponto sai]
com as cataratas turvando-lhe de lacrimejo a espera por conforto meu, pobre mãezinha. Assim,  [sai vírgula] lhe assento um beijo de consolo nas sobras de juventude que lhe vou desvendando por entre a pele do seu rosto enrugado, pobre mãezinha, a deito e retiro algures da cabeceira dois tercinhos outrora abençoados pelo nosso Papa João Paulo, esse sim um verdadeiro Santo, para o rezarmos em uníssono pela alma do paizinho que nas Alturas nos ampara as preces.  [Esta pessoa pouco tem a ver com a do acto III, a aula…]
                (lá me importo, sou uma Santa.
Depois, limito-me a apagar-lhe as luzes e encostar cuidadosamente a porta, porque se a fecho ela contesta
                – Não feches a porta que eu posso estar a morrer e ninguém me acode!
como se a morte pedisse licença. Digo-lhe
                – Tem razão mãezinha. Durma com Deus e com os anjos.
com a minha maldita estridência, motivo de tanta gargalhada mal mastigada desde os meus tempos de menina à professora de liceu de hoje,
                (lá me importo, sou uma Santa.
enquanto me despeço em passinhos de lã do seu sono de velhice, ciente de que talvez a mãezinha se tenha esquecido de mencionar como casou à pressa de barriga, como sou filha de aborto pensado, como não sou desejo de casal enamorado, como eu menina deitei conta aos anos e pela subtração percebi o pecado de que era fruto.
                lá me importo, sou uma Santa.)
Mas, meu Deus, se me importo, se não me pesa o disfarce a que a aparência se me foi moldando. Eu a
                – Parva.
a
                – Sacrificada.
a
                – Santa.
que me faço ser e não sou, porque na verdade vos odeio a todos, ao paizinho que se foi sem aviso prévio, à mãezinha cuja falta de imaginação me deixou a cargo do seu nome diminuído em  [a questão do nome e da pouca imaginação é de somenos, não? Acho deslocado]
                – Sãozinha.
como herança antecipada para a vida, ao meu irmão que longe desta casa edificou a vida que eu poderia ter tido, aos fedelhos dos meus alunos com os seus gracejos diários de escárnio para com a minha figura, à gente que só de existir me incomoda. Mas odeio-vos somente por me odiar a mim.   [Qual a função do irmão na história? Zero, não é? Então para que existe?]

×××××

Coração(zinho).
                Diz a mãezinha que me via já desde menina a organizadinha que ainda hoje sou, talvez por nunca me ter feito mulher. O hábito exige que a cada noite vá adocicando os diminutivos bem na ponta da língua, para amanhã os desembolsar em deixas floreadas de ternura pelos extensos corredores do liceu, assim como os noves que por graça vou atribuindo aos alunos fixados em medicina, não que pouco entendam de Camões, mas por falta de lustro nos meus sapatinhos de
                – Melhor professora de liceu do país!
como tão bem me distinguia o meu falecido paizinho. Quando se esgotam esses meus encargos de docente esforçada, deito-me ao comprido, vencida de cansaço, no maple duplo demasiado desconfortável para me acolher sentada e cedo à vil tentação de explorar a grelha televisiva fora do horário do Telejornal. Lá ligo no Canal Dois pois que remédio, que o resto são essas novelas obscenas carregadas de blasfémias e conteúdo sexual explícito, assim são umas desavergonhadas as de agora, ou nos programas de gente imprópria que se deixa trancar numa mansão vigiada diariamente pelo olhar indiscreto de quem os acompanha em canal aberto. Sou, com certeza, espetadora assídua do programa do Hermano Saraiva, não só pela superioridade que sinto só de saber que me vou cultivando mais que os outros que não o ouvem, mas também pelo fraquinho que desde sempre ruminei por ele que, para mim, sempre foi homem de uma enorme sensualidade. Por vezes dou comigo tão fixada na virilidade da sua presença no ecrã que me alheio dos enredos que ele vai relatando, aflita com os calores que pelo corpo se me alastram. Fito-lhe cada esbracejo tão entusiasmada que quase me descreveria “excitada”, bem no trato das modernices dos dias que correm, assim são umas desavergonhadas as de agora, enquanto o vou escutando mudo no televisor como se lhe tentasse legendar cada fala no tento de conseguir legendar o meu coraçãozinho, para não ter que olhar em volta e dar com o lugar vazio a meu lado, o lugar do marido que nunca quis.
                (arrependo-me?
Daí a segundos já não é o Hermano que vejo no televisor. É o Carlos trajado de batina e colarinho branco, lindo de morte como me recordo dele, pedalando de cabelos ao vento montado na sua bicicleta de cesto com o Sol raiando-lhe no rosto, pronto para a lição de Latim das terças-feiras. Mal tinha ainda assente um pé nesta casa e já me arrastava em pressas para o escritório do paizinho, salivando pelos meus beijos, pelo meu corpo nu, pela minha castidade. Eu toda de difícil nas primeiras ocasiões, porque ele era Padre e eu menina de coro, até que numa das lições a sua insistência lhe rendeu a devida recompensa quando permiti que cavalgasse como animal por entre a intimidade da minha saia casta, que hoje já nem de saias se passeia o mulherio somente de calças de homem, assim são umas desavergonhadas as de agora. Gozei tanto de o ver dentro de mim recuperando fôlego no meu peito que não tardei a render-me aos seus encantos não de Padre, mas de homem, e o Latim passou a ser pecado não só das terças, como também das segundas, quartas, quintas e sextas. Numa das lições, depois de se servir de mim tal fera indomável, me segredou ele ao ouvido
                – Foges comigo Sãozinha?
deixando-me na incerteza de um
                – Não que o paizinho nos matava.
respondido sem jeito.
                (arrependo-me?
Depois saiu sem palavra que fosse para se sumir da vila na manhã seguinte, deixando-me a cargo da abstinência de quarenta anos sem serventia de homem tão estranha ao mundo destes novos tempos, assim são umas desavergonhadas as de agora.
Desisto do Hermano, dá comigo em doida ao invés de me trazer sono. Pego numa das bonequinhas de porcelana que fui colecionando com os anos na prateleira mais vistosa desta salinha. Dou comigo penteando-lhe os postiços cabelinhos dourados, como se penteasse os filhos que nunca tive,
                (arrependo-me?
embalando o seu corpinho oco no meu ventre enquanto vou encostando os seus labiosinhos gélidos de porcelana contra o meu peito, como se me fizesse a mãe que nunca fui.
                (arrependo-me?
Escuto-a chamando-me [redundante: sei que é de propósito mas o «de propósito» não pode servir de justificação para tudo…]
                – Mãezinha.
não da sua boca inerte, mas lá do seu coraçãozinho tão vazio de emoção. Fixo-me nos seus olhinhos de vidro pincelado e, de súbito, me inundam-me o marido que [eu] nunca quis, os filhos que nunca tive e a mãe que nunca fui, o pensamento. [inundam-me o pensamento? Really?]
                arrependo-me?)
Tanto, tanto que minto se afirmar que não morro de arrependimento. A verdade é que não há dia em que um simples Ato de Contrição rezado de improviso não me faça sentir molhada algures pelas cuecas de cinta, não que o Senhor Nosso Deus me entusiasme a esse ponto, mas pelo remorso do Carlos que, por minha culpa, minha tão grande culpa, partiu para bem longe deixando-me nas costas a cruz do fracasso que sou por entre quarenta anos de prazer solitário, fingindo a virgindade de eterna menina que vai culpando as de agora de falta de vergonha quando, no fundo, a desavergonhada sou eu. [Tudo bem: ela é frustrada. Mas a informação é despejada como uma sucessão – uma cascata – de clichés.]

×××××

Adamastor(zinho).
Os sinos dobram pelas nove da manhã. A noite trouxe consigo mais um dia calçando o disfarce de professora. Saia virginal pelo joelho [porquê virginal?], sapatinhos rasos de boa cristã, óculos de míope carinhosa, penteado curto e grisalho bem à moda da mãezinha. Nada de decotes descobertos, calças de independência, tintas no cabelo ou saltos de galdéria. Vou dando aula na sala quinze faz meia hora. Está lotada, como é costume. [Porquê lotada?] Vinte e um rostos de fedelhos mimados odiando-me [21 é lotada?]
(gostem de mim que me odeio.
a cada palavra que verbalizo. [Você verbaliza palavras?] Hoje a lição é acerca de mais um Canto dos Lusíadas, o quarto. Vou fazendo a sua análise estrófica pelos acetatos que há dez anos eu própria escrevi com a minha letrinha de caderno caligráfico. É o Canto que lhes vai sair no próximo ponto mas, na gula pelos meus dezoitos, [??? Qual o interesse para a história?] tudo faço para que disso não se apercebam. Cá à frente, junto das minhas palavras, organizam-se por carteiras o Tiaguinho, a Rutinha, a Beatrizinha, o Pedrinho, a Marianinha e o Carlinhos. São os mais empenhados, costumam até ficar para lá do toque da campainha expondo-me dúvidas triviais como quem me quer é puxar o lustro. Mais atrás, estão a Sofiazinha, a Joaninha, o Fabinho e a Verinha, mas apenas de corpo presente, porque basta virar costas por míseros instantes que para os escuto ar aos segredinhos troçando da minha lição.
                (gostem de mim que me odeio.
Ao pé da porta, está o grupinho dos seis rapazes de pior conduta, o Ruizinho, o Miguelinho, o Dioguinho, o Ricardinho, o Paulinho e o Marquinho. De quando em vez, vão fazendo um ou outro gracejo com o condão de pôr toda a classe em profundas gargalhadas, pelo que essa fama lhes vale assim a proximidade geográfica com a saída. Sobram as três carteiras encostadas às janelas ocupadas pelo Antoninho, o Nuninho, a Aninha, a Catarininha e a Clarinha. São os mais caladinhos da classe sem qualquer historial de mau comportamento, muito embora saiba que me odeiam tanto como os restantes colegas.
                (gostem de mim que me odeio.
Assim, está revista a classe. Fito, austera, cada carteira para que haja disciplina e devoção à lição. Mudo rapidamente de acetato. É a vez do de o pobre Adasmator entrar em cena. Vou descrevendo a sua figura de monstruosidade lendária, explicando que a sua maldade é fruto de um amor antigo que virou traição, enaltecendo a firmeza com que Vasco da Gama lidou com o vilão que, mais que tudo, gritava por atenção, quando fixo uma das carteiras junto às janelas. Vejo a Clarinha de cabelinhos dourados dormindo como anjo sobre os seus braços de adolescência. Fedelha insolente. Aproximo-me em passinhos severos da sua figura. Estamos frente-a-frente, por fim. Acordo-a com a estridente violência da pergunta
                – Estava a pensar em quem Clarinha?
enquanto toda a classe nos fixa silenciosa e bem atenta ao escândalo. Ela eleva então a cabeça fitando-me sem qualquer respeito no seu olhar negro, para responder segura e triunfante
                – Em si professora.
deixando a classe numa histeria de risos de desdém. Medindo ainda a métrica do seu insulto ao meu trabalho, tudo o que me limito a dizer-lhe envergonhada, triste, feia, amargurada, sonsa, humilhada, estridente, gozada, sozinha, sofrida, ultrapassada, morta,
                (gostem de mim que me odeio.
é
                – RUA!
rasgando-lhe um sorriso de satisfação nos lábios. Olho-me. Odeio-me. Vem-me o diabo do Adasmator ao pensamento. Como te entendo monstro dos mares, como faço minha a tua fealdade, como me sinto aberração neste mundo e repentinamente decido
                – Não saia Clarinha. Sente-se.
para seu enorme espanto. Então, sem soltar palavra alguma, saio [eu] porta fora VÍRGULA: PAUSA IMPORTANTE implorando quase de joelhos

                gostem de mim que me odeio.)

terça-feira, 1 de outubro de 2013