Veredicto: Gosto da ideia. É triste. Todo o conto vive da tensão de irmos descobrindo a personagem aos poucos. E, mesmo no fim, o texto é ambíguo: a mulher é louca? Quem perdeu? Adulto ou criança? Mas, para mim, é obscuro em pontos onde não tem de o ser. Pelo contrário: quando mais detalhado e visual (e fácil de seguir) for o ambiente à volta, e os movimentos dela, melhor.
Eu revia o texto tornando mais clara a escrita. Sem estragar o mistério, mas evitando obscuridades que não são poéticas nem sugestivas, apenas confusas e de sintaxe duvidosa.
Eu revia o texto tornando mais clara a escrita. Sem estragar o mistério, mas evitando obscuridades que não são poéticas nem sugestivas, apenas confusas e de sintaxe duvidosa.
Abraçando Leonardo. Título não
precisa de ponto
De vez em quando dava-lhe para
aquilo. Se não estava muito frio, ia. [Evitar rima:]
Vestia/punha um casaco e enfiava uns óculos escuros, dos que
escondem a cara, e ocupava um lugar. De preferência ao
sol.
Inicialmente não conseguia evitar
olhares mais atentos ou mesmo perguntas incómodas. Agora não, já ninguém
ligava. Nos dias em que aparecia
era já parte do espaço de tanto que se tinha fundido nele.
Ela. As papeleiras cobertas de
autocolantes a informarem-nos [de] que era possível limparem-nos a chaminé sem
nos sujarem a casa ou que nos montam toldos
em 24 horas. Orçamentos gratuitos. [Não percebo o que
tem o parágrafo a ver com a 1ª frase.]
Ela. Os bancos de ferro e madeira ripada onde canivetes juraram amor
eterno. João, I love you.
Ela. A máquina que engolia moedas em troco de papelinhos sumidos.
Carcavelos-Cais-do-Sodré. [Este três parágrafos têm
força poética mas narrativamente são esquisitos e pouco eficientes.]
Ela, ali parada.
Ganhara já a indiferença alheios.
Os pedintes e a ciganita encardida que impingia pensos rápidos já não a
assediavam. Ser alienada conferia-lhe estatuto de intocável e [ela] gostava disso.
Um ou outro jovem com espírito de
missionário tentara em vão a cruzada. [?? Eu
chego lá… Mas não devia ter de me esforçar.]
Que ninguém a perturbasse na sua concentração. Que ninguém lhe embotasse
os sentidos. [Que ninguém lhe embotasse os sentidos?]
Tinha muito [em]
que pensar. Organizar-se. Refazer mentalmente vezes e vezes sem conta
todo o percurso. Ajuizar qual a maneira melhor e mais rápida maneira de lá chegar.
[Muito bem: já tivemos a informação de que ela é
excêntrica, agora temos a de que quer ir para algum lado. O ritmo está bom. A escrita
é que see esforça demasiado por ser «poética».]
Havia muitos comboios e muitos
horários. Uns exigiam transbordo. Outros eram directos e deslizavam arrebatadoramente entre destinos sem acalmia, arrastando
tudo à sua passagem.
Qual o melhor percurso? Que comboio
escolher? E o que devia vestir? Estaria bem assim?
Talvez devesse ir antes primeiro ao cabeleireiro. [para não parecer que é antes no sentido de alternativa]Ele
gostava de a ver com o cabelo bonito, arranjado. “ -De
seda, mãe”, como costumava dizer quando era pequeno. [Muito bem: aqui
parece quase revelar o mistério. Mas depois no fim volta a dúvida, e não acho
que haja razão para isso.]
Passou-lhes os dedos. [A quem???] Estavam
crespos, espigados, com brancos tortuosos a evidenciarem-se aqui e ali. Para onde fora a seda? Tinha que a recuperar.
Não podia deixá-lo vê-la assim. [Seda? Há cabelos
sedosos, mas o leitor que eu sou nunca ouviu falar que tenham seda…]
Inquietava-se. Tremiam-lhe as mãos ao toque na seda ausente.
E se ele não gostasse de a ver? Ou
se não estivesse lá e ninguém soubesse dizer-lhe a sua nova morada? Iria em
vão? [Agora parece de novo um homem, não um filho… E já
era altura de o leitor saber que idade tem esta mulher: 30, 40, 50, 70 anos?
Como posso eu seguir visualmente a história se não consigo imaginá-la?]
Havia momentos em que não sabia o que fazer. Outros em que estava certa que
tinha que de ter de ir ao seu encontro, mesmo
assim, sem avisar. Também não sabia como o fazer, não tinha como. E ele também
partira sem qualquer aviso. Era justo que fosse então assim.
Lembrou-se de flores. Podia
levar-lhe algumas. Alegres. Ele sempre as apreciara. Amarelas, como as que ele
próprio tantas vezes lhe trouxera nos dias em que o calendário escolar assim o
ditava. [Eliminei o parágrafo: são a mesma ideia.]
Inicialmente vinham com cartões cheios de corações incertos preenchidos a lápis
de cera e com letras tortas, desenhadas a custo, cheios de erros. Depois os
erros e os corações despareceram e as letras
tornaram-se cada vez mais idênticas às dos jornais e depois acabaram mesmo por
desaparecer de todo. As flores deixaram de precisar de legenda e um beijo
rápido depositado na testa, fizera a vez daqueles. [Ok:
aqui começo a pensar que é uma mãe idosa que tem mesmo um filho real e vivo, só
que ele não fala com ela há anos. Se sim, porquê?]
Sim, levar-lhe-ia flores, mesmo
correndo o risco de ele achar excessivo ou embaraçoso até. Talvez as suas
flores também dispensassem legendas e assim não tivesse que dizer muita coisa.
Justificar-se, pedir-lhe perdão por ter demorado tanto tempo.
Estava assente. Cabeleireiro e flores amaciariam a sua chegada.
Agora só faltava escolher o comboio certo e tomá-lo. O que fosse mais
rápido, sem transbordos, nem paragens. [Esta frase com
este «Agora» muda de andamento, como que a entrar no acto III, certo?]
Levou a mão ao bolso das calças [todo este tempo pensei que ela estivesse
de saias – uma mulher que vai e folheou o horário que já se havia moldado à sua
nádega. Deteve-se em cada linha. Hora e minuto da partida. Hora e minuto da
chegada.
O das 11:34h pareceu-lhe bem. Em Carcavelos. [??
O que tem isto a ver? Tem de fazer sentido para o conto] Olhou para o
relógio que pendia sobre a cabeça das pessoas e avaliou. Se se despachasse,
ainda dava tempo, achava.
Levou a outra mão ao outro bolso.
Quanto custaria devolver a seda aos seus cabelos? Não pretendia nada de
especial. Queria apenas a seda de volta, na secreta esperança de que ele lha
afagasse.
Levantou-se e saiu da estação. Em
passo rápido atravessou a rua, andando um pouco para a direita e perdeu-se
de vista numa perpendicular. [Pode uma pessoa «perder-se
de vista»? Eu perco os outros de vista, mas não a mim…]
Entrou [Onde?] e
enquanto esperava que alguém se dirigisse a si, deteve-se nos cartazes em que
autênticas sereias dos tempos modernos ilustravam que tinham [algo mais simples,
tipo: exibiam um] cabelo à prova de tudo e como eram felizes assim.
Apenas algumas gotas de um sérum
qualquer a cada lavagem e todas podiam ser sereias. E felizes!
Foi atendida. [Só agora percebo que entrou num cabeleireiro…] Queria
apenas lavá-lo e que ele ficasse sedoso, bonito. Como uma sereia, brincou.
Hidratação profunda? Sim, podia ser isso, desde que fosse para já. Não
tinha muito tempo disponível.
Sentou-se e deixou que umas mãos
treinadas lhe engolissem o cabelo para pouco tempo depois o regurgitarem
como novo.
Hidratação profunda. Era uma sereia.
Os anos não a deixavam ser uma das ninfetas dos cartazes, mas a seda
voltara em forma ondulada, a lembrar Leonardo com os seus quatro, cinco
anos a adormecer com os dedos enrolados nos seus cabelos, desenhando
canudos. [seus dele/seus dela…]
Foi bom voltar a senti-lo [o cabelo] sedoso, como que num prenúncio de que o
encontraria e [de] que ele voltaria a fazer
desaparecer os dedos nos seus caracóis. [Ela tinha
caracóis??? Diz-me isso no fim do conto?]
Regressou à rua e estugou o passo,
olhando para a estação. Antes porém de desaparecer na passagem subterrânea,
parou na florista, que o era até chegar Novembro, altura em que cravos, rosas e
margaridas trocavam de lugar com as castanhas e com as folhas das páginas
amarelas. Vá pelos seus dedos. [Gosto deste parágrafo]
Margaridas amarelas. Um molho. Não
era preciso mais verdura, assim estavam bem, bonitas, simples e envoltas em
papel pardo.
Renunciou ao troco, entregando-lhe [a
quem?] todo o dinheiro que possuia no bolso. “Felicidades”, gritou-lhe a mulher, em
pregão. Agradeceu de forma sentida. Era
isso que buscava: a felicidade. A felicidade de voltar a abraçar Leonardo. [Bom]
Entrou derradeiramente na estação.
Apertou as flores contra si como se elas fossem já o corpo dele.
Virou os olhos para o pendente que denunciava as horas e confirmou que
estava quase. Faltava já muito pouco tempo. Brevíssimos minutos e chegaria o
seu comboio.
Compenetrou-se, sentindo por
segundos a boca seca e os lábios a colarem-se-lhe aos dentes. Engoliu em seco,
inventando saliva que não tinha. Fechou os olhos e inspirou demoradamente.
Foi então que VÍRGULA segundos depois VÍRGULA começou a ouvi-lo a aproximar-se e estremeceu.
Nunca tinha atentado que faziam tanto barulho. [Quem?]
Seria aquele que fazia mais, anunciando-lhe ser o seu comboio? [Agora já não quero saber. Era atrás, na frase anterior, que
me devia dar esta informação.]
Posicionou-se naquele que lhe
pareceu ser o melhor lugar para o aguardar e avistou-o logo a devorar os
carris a uma velocidade lancinante, chegando num instante junto de si. [Só os atletas se «posicionam»…]
Foi então, que sorrindo e pensando
apenas em Leonardo, ensaiou o voo, abrindo os braços, e avançando por entre
gritos de transeuntes e um mar de pétalas amarelas, foi abraçar o monstro de
ferro, que chiando, tudo devastava à sua passagem...
A ciganita dos pensos ainda a ouviu
gritar um nome comprido, que não sabia reproduzir! [Sugestão
alternativa: A ciganita dos pensos ainda a ouviu gritar um nome comprido
que, quando a polícia veio, não soube
reproduzir.]
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