quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Revisão 4: Vasco Oliveira: (zinha)

Veredicto: 
1) o parênteses não fechado é um dispositivo original, eu pelo menos nunca tinha visto. A questão é: serve para quê?
2) o tríptico não «cola» muito bem. Como lhe disse, acho a parte da aula a mais bem conseguida. Mas você pode aqui ter o embrião de um texto mais vasto, onde vá tratando o mundo vazio de uma professora que vive sob o peso do «sacrifício» e da mãe.
3) A «santidade» é aqui - suponho que é essa a ideia - uma canga, um peso, uma falsidade. Isso é bem sublinhado pelos diminutivos, pela história de horror que é a vida ddesta personagem. Mas não se percebe beem em que é que esta vida é tão terrível. A mãe é beata, o pai morreu cedo? E daí? Não é claro para mim o que há de tão terrível nesta mãe velha e chata. Parece-me um cliché que você imagina mas não conhece. Estou errado? 
4) Não gosto de títulos tipo Mãe(zinha). Prefiro zinha ou mãezinha, Já tiveram o seu tempo. Onésimo Teotónio Almeida fez isso - (Sapa)teia Açoriana, de há 20 anos - e não faz o meu género. Nos anos 70 muita poesia tinha isso. Eu gosto de parênteses, mas prefiro a escola José Gomes Ferreira: o parênteses à volta de palavras ou frases, não (a)parecimentos ou ment(ira)s...
5) Lobo Antunes é excelente para um leitor mas perigoso para um escritor. Aproximamo-nos dele e queima, somos arrastados para o glosar, porque aquela respiração quase rio é mesmo sedutora. Eu também tenho muita tendência para escrever assim. O problema é que Lobo Antunes é melhor a fazer aquilo do que eu. Então prefiro afastar-me. 

Resposta do Vasco: 
1) Quanto aos pontos que enunciou:
2) O parênteses em aberto é um artifício estético que há algum tempo atrás arranjei de forma a delimitar o início e o final das linhas de raciocínio. Essas linhas traduzem-se na repetição interior de uma afirmação/pergunta sucessivas vezes, até que na última delas a personagem em causa se vê forçada a responder/comentar essa mesma afirmação/pergunta confrontando-se com a sua realidade, daí fechar o parênteses em vez de o manter aberto.
3) O objectivo do conto ser tríptico é somente para dar uma noção mais precisa tanto do passado como do presente da personagem nos três pontos fulcral de vida, Familiar, Amoroso e Profissional. No entanto, claro que concordo que a história tem "sumo" para bastantes mais páginas.  
4) Os títulos, foram colocados com esses (zinho)/(zinha) por pura referência ao título do conto.
5) Reconheço em António Lobo Antunes um dos meus ídolos literários e, por vezes, é árduo desligarmo-nos desses ídolos. Não que o copie como é evidente, foi apenas uma influência. 

E AGORA O CONTO: 

Mãe(zinha).  Título não precisa de ponto final.
                São dez da noite. Deitei a mãezinha faz quarto de hora. Desde que a cova nos levou o paizinho que [vírgula, evitar a sobredose de quês é sempre bom] deitá-la se tornou-se meu hábito quotidiano, talvez para lhe amparar o lugar vazio que restou no desmedido leito de cinquenta e oito anos de próspero matrimónio. Escada acima a levo pela mão trémula que o cardápio farmacêutico diário não lhe resolve, pobre mãezinha, e degrau a degrau vamos varrendo as mais longínquas recordações do paizinho, como se lhe políssemos a lápide. [a mão trémula que o cardápio farmacêutico diário não lhe resolve? Rebuscado, mas pronto, vai informando o leitor da voz da narradora.]
                ( me importo, sou uma Santa.
Ele longe galgando destemido meio Atlântico em demanda por esse Ultramar perdido, tão rendido às nossas saudades que ia fixando o recorte fotográfico retangular que perpetuava o nosso retrato de família imperturbavelmente feliz, afundando-se nos nossos olhos quietos de papel tingido na esperança que não fosse o Vera Cruz naufragar-lhe a memória. [Rebuscado e desnecessariamente complicado.] Ele são e salvo, mais vivo que nós duas que de morte lenta sofríamos por não darmos com o seu regresso, enquanto meu irmão ensaiava diversões de menino ausente do concreto pelo vasto roseiral desta casa tão majestosa para a época. [Idem…] Ele que nunca se embriagara de amores alheios à aliança do anelar esquerdo [?!?], que era figura de Santo de carne e osso e mentiria quem dissesse o contrário. Sempre ele, o paizinho, louvado a cada passada até ao último dos degraus em que o esforço pelos setenta e seis anos de calvário absoluto por ter sacrificado uma vida para me poder ter tido lhe cansa as varizes, pobre mãezinha, e arfando bem segura ao corrimão de metal reluzente, me abrevia tudo o que a escadaria foi adiando a cada degrau  [Entendo o barroquismo e as perífrases, mas não faz o meu género]
                – Não imaginas a falta que o Santo do teu pai me faz, minha rica filha. Que o tenha Deus em eterno descanso.   [Logicamente o ponto sai]
com as cataratas turvando-lhe de lacrimejo a espera por conforto meu, pobre mãezinha. Assim,  [sai vírgula] lhe assento um beijo de consolo nas sobras de juventude que lhe vou desvendando por entre a pele do seu rosto enrugado, pobre mãezinha, a deito e retiro algures da cabeceira dois tercinhos outrora abençoados pelo nosso Papa João Paulo, esse sim um verdadeiro Santo, para o rezarmos em uníssono pela alma do paizinho que nas Alturas nos ampara as preces.  [Esta pessoa pouco tem a ver com a do acto III, a aula…]
                (lá me importo, sou uma Santa.
Depois, limito-me a apagar-lhe as luzes e encostar cuidadosamente a porta, porque se a fecho ela contesta
                – Não feches a porta que eu posso estar a morrer e ninguém me acode!
como se a morte pedisse licença. Digo-lhe
                – Tem razão mãezinha. Durma com Deus e com os anjos.
com a minha maldita estridência, motivo de tanta gargalhada mal mastigada desde os meus tempos de menina à professora de liceu de hoje,
                (lá me importo, sou uma Santa.
enquanto me despeço em passinhos de lã do seu sono de velhice, ciente de que talvez a mãezinha se tenha esquecido de mencionar como casou à pressa de barriga, como sou filha de aborto pensado, como não sou desejo de casal enamorado, como eu menina deitei conta aos anos e pela subtração percebi o pecado de que era fruto.
                lá me importo, sou uma Santa.)
Mas, meu Deus, se me importo, se não me pesa o disfarce a que a aparência se me foi moldando. Eu a
                – Parva.
a
                – Sacrificada.
a
                – Santa.
que me faço ser e não sou, porque na verdade vos odeio a todos, ao paizinho que se foi sem aviso prévio, à mãezinha cuja falta de imaginação me deixou a cargo do seu nome diminuído em  [a questão do nome e da pouca imaginação é de somenos, não? Acho deslocado]
                – Sãozinha.
como herança antecipada para a vida, ao meu irmão que longe desta casa edificou a vida que eu poderia ter tido, aos fedelhos dos meus alunos com os seus gracejos diários de escárnio para com a minha figura, à gente que só de existir me incomoda. Mas odeio-vos somente por me odiar a mim.   [Qual a função do irmão na história? Zero, não é? Então para que existe?]

×××××

Coração(zinho).
                Diz a mãezinha que me via já desde menina a organizadinha que ainda hoje sou, talvez por nunca me ter feito mulher. O hábito exige que a cada noite vá adocicando os diminutivos bem na ponta da língua, para amanhã os desembolsar em deixas floreadas de ternura pelos extensos corredores do liceu, assim como os noves que por graça vou atribuindo aos alunos fixados em medicina, não que pouco entendam de Camões, mas por falta de lustro nos meus sapatinhos de
                – Melhor professora de liceu do país!
como tão bem me distinguia o meu falecido paizinho. Quando se esgotam esses meus encargos de docente esforçada, deito-me ao comprido, vencida de cansaço, no maple duplo demasiado desconfortável para me acolher sentada e cedo à vil tentação de explorar a grelha televisiva fora do horário do Telejornal. Lá ligo no Canal Dois pois que remédio, que o resto são essas novelas obscenas carregadas de blasfémias e conteúdo sexual explícito, assim são umas desavergonhadas as de agora, ou nos programas de gente imprópria que se deixa trancar numa mansão vigiada diariamente pelo olhar indiscreto de quem os acompanha em canal aberto. Sou, com certeza, espetadora assídua do programa do Hermano Saraiva, não só pela superioridade que sinto só de saber que me vou cultivando mais que os outros que não o ouvem, mas também pelo fraquinho que desde sempre ruminei por ele que, para mim, sempre foi homem de uma enorme sensualidade. Por vezes dou comigo tão fixada na virilidade da sua presença no ecrã que me alheio dos enredos que ele vai relatando, aflita com os calores que pelo corpo se me alastram. Fito-lhe cada esbracejo tão entusiasmada que quase me descreveria “excitada”, bem no trato das modernices dos dias que correm, assim são umas desavergonhadas as de agora, enquanto o vou escutando mudo no televisor como se lhe tentasse legendar cada fala no tento de conseguir legendar o meu coraçãozinho, para não ter que olhar em volta e dar com o lugar vazio a meu lado, o lugar do marido que nunca quis.
                (arrependo-me?
Daí a segundos já não é o Hermano que vejo no televisor. É o Carlos trajado de batina e colarinho branco, lindo de morte como me recordo dele, pedalando de cabelos ao vento montado na sua bicicleta de cesto com o Sol raiando-lhe no rosto, pronto para a lição de Latim das terças-feiras. Mal tinha ainda assente um pé nesta casa e já me arrastava em pressas para o escritório do paizinho, salivando pelos meus beijos, pelo meu corpo nu, pela minha castidade. Eu toda de difícil nas primeiras ocasiões, porque ele era Padre e eu menina de coro, até que numa das lições a sua insistência lhe rendeu a devida recompensa quando permiti que cavalgasse como animal por entre a intimidade da minha saia casta, que hoje já nem de saias se passeia o mulherio somente de calças de homem, assim são umas desavergonhadas as de agora. Gozei tanto de o ver dentro de mim recuperando fôlego no meu peito que não tardei a render-me aos seus encantos não de Padre, mas de homem, e o Latim passou a ser pecado não só das terças, como também das segundas, quartas, quintas e sextas. Numa das lições, depois de se servir de mim tal fera indomável, me segredou ele ao ouvido
                – Foges comigo Sãozinha?
deixando-me na incerteza de um
                – Não que o paizinho nos matava.
respondido sem jeito.
                (arrependo-me?
Depois saiu sem palavra que fosse para se sumir da vila na manhã seguinte, deixando-me a cargo da abstinência de quarenta anos sem serventia de homem tão estranha ao mundo destes novos tempos, assim são umas desavergonhadas as de agora.
Desisto do Hermano, dá comigo em doida ao invés de me trazer sono. Pego numa das bonequinhas de porcelana que fui colecionando com os anos na prateleira mais vistosa desta salinha. Dou comigo penteando-lhe os postiços cabelinhos dourados, como se penteasse os filhos que nunca tive,
                (arrependo-me?
embalando o seu corpinho oco no meu ventre enquanto vou encostando os seus labiosinhos gélidos de porcelana contra o meu peito, como se me fizesse a mãe que nunca fui.
                (arrependo-me?
Escuto-a chamando-me [redundante: sei que é de propósito mas o «de propósito» não pode servir de justificação para tudo…]
                – Mãezinha.
não da sua boca inerte, mas lá do seu coraçãozinho tão vazio de emoção. Fixo-me nos seus olhinhos de vidro pincelado e, de súbito, me inundam-me o marido que [eu] nunca quis, os filhos que nunca tive e a mãe que nunca fui, o pensamento. [inundam-me o pensamento? Really?]
                arrependo-me?)
Tanto, tanto que minto se afirmar que não morro de arrependimento. A verdade é que não há dia em que um simples Ato de Contrição rezado de improviso não me faça sentir molhada algures pelas cuecas de cinta, não que o Senhor Nosso Deus me entusiasme a esse ponto, mas pelo remorso do Carlos que, por minha culpa, minha tão grande culpa, partiu para bem longe deixando-me nas costas a cruz do fracasso que sou por entre quarenta anos de prazer solitário, fingindo a virgindade de eterna menina que vai culpando as de agora de falta de vergonha quando, no fundo, a desavergonhada sou eu. [Tudo bem: ela é frustrada. Mas a informação é despejada como uma sucessão – uma cascata – de clichés.]

×××××

Adamastor(zinho).
Os sinos dobram pelas nove da manhã. A noite trouxe consigo mais um dia calçando o disfarce de professora. Saia virginal pelo joelho [porquê virginal?], sapatinhos rasos de boa cristã, óculos de míope carinhosa, penteado curto e grisalho bem à moda da mãezinha. Nada de decotes descobertos, calças de independência, tintas no cabelo ou saltos de galdéria. Vou dando aula na sala quinze faz meia hora. Está lotada, como é costume. [Porquê lotada?] Vinte e um rostos de fedelhos mimados odiando-me [21 é lotada?]
(gostem de mim que me odeio.
a cada palavra que verbalizo. [Você verbaliza palavras?] Hoje a lição é acerca de mais um Canto dos Lusíadas, o quarto. Vou fazendo a sua análise estrófica pelos acetatos que há dez anos eu própria escrevi com a minha letrinha de caderno caligráfico. É o Canto que lhes vai sair no próximo ponto mas, na gula pelos meus dezoitos, [??? Qual o interesse para a história?] tudo faço para que disso não se apercebam. Cá à frente, junto das minhas palavras, organizam-se por carteiras o Tiaguinho, a Rutinha, a Beatrizinha, o Pedrinho, a Marianinha e o Carlinhos. São os mais empenhados, costumam até ficar para lá do toque da campainha expondo-me dúvidas triviais como quem me quer é puxar o lustro. Mais atrás, estão a Sofiazinha, a Joaninha, o Fabinho e a Verinha, mas apenas de corpo presente, porque basta virar costas por míseros instantes que para os escuto ar aos segredinhos troçando da minha lição.
                (gostem de mim que me odeio.
Ao pé da porta, está o grupinho dos seis rapazes de pior conduta, o Ruizinho, o Miguelinho, o Dioguinho, o Ricardinho, o Paulinho e o Marquinho. De quando em vez, vão fazendo um ou outro gracejo com o condão de pôr toda a classe em profundas gargalhadas, pelo que essa fama lhes vale assim a proximidade geográfica com a saída. Sobram as três carteiras encostadas às janelas ocupadas pelo Antoninho, o Nuninho, a Aninha, a Catarininha e a Clarinha. São os mais caladinhos da classe sem qualquer historial de mau comportamento, muito embora saiba que me odeiam tanto como os restantes colegas.
                (gostem de mim que me odeio.
Assim, está revista a classe. Fito, austera, cada carteira para que haja disciplina e devoção à lição. Mudo rapidamente de acetato. É a vez do de o pobre Adasmator entrar em cena. Vou descrevendo a sua figura de monstruosidade lendária, explicando que a sua maldade é fruto de um amor antigo que virou traição, enaltecendo a firmeza com que Vasco da Gama lidou com o vilão que, mais que tudo, gritava por atenção, quando fixo uma das carteiras junto às janelas. Vejo a Clarinha de cabelinhos dourados dormindo como anjo sobre os seus braços de adolescência. Fedelha insolente. Aproximo-me em passinhos severos da sua figura. Estamos frente-a-frente, por fim. Acordo-a com a estridente violência da pergunta
                – Estava a pensar em quem Clarinha?
enquanto toda a classe nos fixa silenciosa e bem atenta ao escândalo. Ela eleva então a cabeça fitando-me sem qualquer respeito no seu olhar negro, para responder segura e triunfante
                – Em si professora.
deixando a classe numa histeria de risos de desdém. Medindo ainda a métrica do seu insulto ao meu trabalho, tudo o que me limito a dizer-lhe envergonhada, triste, feia, amargurada, sonsa, humilhada, estridente, gozada, sozinha, sofrida, ultrapassada, morta,
                (gostem de mim que me odeio.
é
                – RUA!
rasgando-lhe um sorriso de satisfação nos lábios. Olho-me. Odeio-me. Vem-me o diabo do Adasmator ao pensamento. Como te entendo monstro dos mares, como faço minha a tua fealdade, como me sinto aberração neste mundo e repentinamente decido
                – Não saia Clarinha. Sente-se.
para seu enorme espanto. Então, sem soltar palavra alguma, saio [eu] porta fora VÍRGULA: PAUSA IMPORTANTE implorando quase de joelhos

                gostem de mim que me odeio.)

Sem comentários:

Enviar um comentário