1) o parênteses não fechado é um dispositivo original, eu pelo menos nunca tinha visto. A questão é: serve para quê?
2) o tríptico não «cola» muito bem. Como lhe disse, acho a parte da aula a mais bem conseguida. Mas você pode aqui ter o embrião de um texto mais vasto, onde vá tratando o mundo vazio de uma professora que vive sob o peso do «sacrifício» e da mãe.
3) A «santidade» é aqui - suponho que é essa a ideia - uma canga, um peso, uma falsidade. Isso é bem sublinhado pelos diminutivos, pela história de horror que é a vida ddesta personagem. Mas não se percebe beem em que é que esta vida é tão terrível. A mãe é beata, o pai morreu cedo? E daí? Não é claro para mim o que há de tão terrível nesta mãe velha e chata. Parece-me um cliché que você imagina mas não conhece. Estou errado?
4) Não gosto de títulos tipo Mãe(zinha). Prefiro zinha ou mãezinha, Já tiveram o seu tempo. Onésimo Teotónio Almeida fez isso - (Sapa)teia Açoriana, de há 20 anos - e não faz o meu género. Nos anos 70 muita poesia tinha isso. Eu gosto de parênteses, mas prefiro a escola José Gomes Ferreira: o parênteses à volta de palavras ou frases, não (a)parecimentos ou ment(ira)s...
5) Lobo Antunes é excelente para um leitor mas perigoso para um escritor. Aproximamo-nos dele e queima, somos arrastados para o glosar, porque aquela respiração quase rio é mesmo sedutora. Eu também tenho muita tendência para escrever assim. O problema é que Lobo Antunes é melhor a fazer aquilo do que eu. Então prefiro afastar-me.
1) Quanto aos pontos que enunciou:
2) O parênteses em aberto é um artifício estético que há algum tempo atrás arranjei de forma a delimitar o início e o final das linhas de raciocínio. Essas linhas traduzem-se na repetição interior de uma afirmação/pergunta sucessivas vezes, até que na última delas a personagem em causa se vê forçada a responder/comentar essa mesma afirmação/pergunta confrontando-se com a sua realidade, daí fechar o parênteses em vez de o manter aberto.
3) O objectivo do conto ser tríptico é somente para dar uma noção mais precisa tanto do passado como do presente da personagem nos três pontos fulcral de vida, Familiar, Amoroso e Profissional. No entanto, claro que concordo que a história tem "sumo" para bastantes mais páginas.
4) Os títulos, foram colocados com esses (zinho)/(zinha) por pura referência ao título do conto.
5) Reconheço em António Lobo Antunes um dos meus ídolos literários e, por vezes, é árduo desligarmo-nos desses ídolos. Não que o copie como é evidente, foi apenas uma influência.
E AGORA O CONTO:
Mãe(zinha). Título não precisa de ponto final.
São
dez da noite. Deitei a mãezinha faz quarto de hora. Desde que a cova nos levou
o paizinho que [vírgula, evitar a sobredose de quês é sempre bom]
deitá-la se tornou-se meu hábito quotidiano, talvez para lhe amparar
o lugar vazio que restou no desmedido leito de cinquenta e oito anos de próspero matrimónio. Escada acima a levo pela mão trémula que o cardápio farmacêutico diário não lhe resolve,
pobre mãezinha, e degrau a degrau vamos varrendo as mais longínquas recordações
do paizinho, como se lhe políssemos a lápide. [a mão
trémula que o cardápio farmacêutico diário não lhe resolve? Rebuscado, mas
pronto, vai informando o leitor da voz da narradora.]
(lá me importo, sou uma Santa.
Ele lá
longe galgando destemido meio Atlântico em demanda por esse Ultramar perdido,
tão rendido às nossas saudades que ia fixando o
recorte fotográfico retangular que perpetuava o nosso
retrato de família imperturbavelmente feliz, afundando-se nos nossos olhos quietos
de papel tingido na esperança que não fosse o
Vera Cruz naufragar-lhe a memória. [Rebuscado e
desnecessariamente complicado.] Ele são e salvo, mais vivo que nós duas que de
morte lenta sofríamos por não darmos com o seu regresso, enquanto meu irmão ensaiava
diversões de menino ausente do concreto pelo vasto roseiral desta casa tão
majestosa para a época. [Idem…] Ele que nunca se
embriagara de amores alheios à aliança do anelar esquerdo [?!?], que era figura de Santo de carne e osso e mentiria
quem dissesse o contrário. Sempre ele, o paizinho, louvado a cada passada até
ao último dos degraus em que o esforço pelos setenta e seis anos de calvário
absoluto por ter sacrificado uma vida para me
poder ter tido lhe cansa as varizes, pobre mãezinha,
e arfando bem segura ao corrimão de metal reluzente, me abrevia tudo o que a
escadaria foi adiando a cada degrau [Entendo o barroquismo e as perífrases, mas
não faz o meu género]
–
Não imaginas a falta que o Santo do teu pai me faz, minha rica filha. Que o
tenha Deus em eterno descanso. [Logicamente o ponto sai]
com as cataratas turvando-lhe de
lacrimejo a espera por conforto meu,
pobre mãezinha. Assim, [sai vírgula] lhe
assento um beijo de consolo nas sobras de juventude que lhe vou desvendando por
entre a pele do seu rosto enrugado, pobre mãezinha, a deito e retiro algures da
cabeceira dois tercinhos outrora abençoados pelo nosso Papa João Paulo, esse
sim um verdadeiro Santo, para o rezarmos em uníssono pela alma do paizinho que
nas Alturas nos ampara as preces. [Esta pessoa pouco tem a ver com a do acto III, a aula…]
(lá me importo, sou uma Santa.
Depois, limito-me a apagar-lhe as
luzes e encostar cuidadosamente a porta, porque se a fecho ela contesta
– Não feches a porta que
eu posso estar a morrer e ninguém me acode!
como se a morte pedisse licença.
Digo-lhe
–
Tem razão mãezinha. Durma com Deus e com os anjos.
com a minha maldita estridência, motivo
de tanta gargalhada mal mastigada desde os meus tempos de menina à professora
de liceu de hoje,
(lá
me importo, sou uma Santa.
enquanto me despeço em passinhos
de lã do seu sono de velhice, ciente de que talvez a mãezinha se tenha
esquecido de mencionar como casou à pressa de barriga, como sou filha de aborto
pensado, como não sou desejo de casal enamorado, como eu menina deitei conta
aos anos e pela subtração percebi o pecado de que era fruto.
lá
me importo, sou uma Santa.)
Mas, meu Deus, se me importo, se
não me pesa o disfarce a que a aparência se me foi moldando. Eu a
–
Parva.
a
–
Sacrificada.
a
–
Santa.
que me faço ser e não sou, porque
na verdade vos odeio a todos, ao paizinho que se foi sem aviso prévio, à mãezinha cuja falta de imaginação me deixou a cargo do seu
nome diminuído em [a questão do nome e da pouca imaginação é de
somenos, não? Acho deslocado]
–
Sãozinha.
como herança antecipada para a
vida, ao meu irmão que longe desta casa edificou
a vida que eu poderia ter tido, aos fedelhos dos meus alunos com os seus
gracejos diários de escárnio para com a minha figura, à gente que só de existir
me incomoda. Mas odeio-vos somente por me odiar a mim. [Qual a função do irmão na história? Zero, não é? Então para
que existe?]
×××××
Coração(zinho).
Diz
a mãezinha que me via já desde menina a organizadinha que ainda hoje sou,
talvez por nunca me ter feito mulher. O hábito exige que a cada noite vá adocicando
os diminutivos bem na ponta da língua, para amanhã os desembolsar em deixas
floreadas de ternura pelos extensos
corredores do liceu, assim como os noves que por graça vou atribuindo aos
alunos fixados em medicina, não que pouco entendam de Camões, mas por falta de
lustro nos meus sapatinhos de
–
Melhor professora de liceu do país!
como tão bem me distinguia o meu falecido
paizinho. Quando se esgotam esses meus encargos de docente esforçada, deito-me
ao comprido, vencida de cansaço, no maple duplo demasiado desconfortável para
me acolher sentada e cedo à vil tentação de explorar a grelha televisiva fora
do horário do Telejornal. Lá ligo no Canal Dois pois que remédio, que o resto
são essas novelas obscenas carregadas de blasfémias e conteúdo sexual explícito,
assim são umas desavergonhadas as de agora, ou nos programas de gente imprópria
que se deixa trancar numa mansão vigiada diariamente pelo olhar indiscreto de quem
os acompanha em canal aberto. Sou, com certeza, espetadora assídua do programa
do Hermano Saraiva, não só pela superioridade que sinto só de saber que me vou
cultivando mais que os outros que não o ouvem, mas também pelo fraquinho que
desde sempre ruminei por ele que, para mim, sempre foi homem de uma enorme sensualidade.
Por vezes dou comigo tão fixada na virilidade da sua presença no ecrã que me
alheio dos enredos que ele vai relatando, aflita com os calores que pelo corpo se
me alastram. Fito-lhe cada esbracejo tão entusiasmada que quase me descreveria
“excitada”, bem no trato das modernices dos dias que correm, assim são umas
desavergonhadas as de agora, enquanto o vou escutando mudo no televisor como se
lhe tentasse legendar cada fala no tento de conseguir legendar o meu coraçãozinho,
para não ter que olhar em volta e dar com o lugar vazio a meu lado, o lugar do
marido que nunca quis.
(arrependo-me?
Daí a segundos já não é o Hermano
que vejo no televisor. É o Carlos trajado de batina e colarinho branco, lindo
de morte como me recordo dele, pedalando de cabelos ao vento montado na sua bicicleta
de cesto com o Sol raiando-lhe no rosto, pronto para a lição de Latim das terças-feiras.
Mal tinha ainda assente um pé nesta casa e já me arrastava em pressas para o
escritório do paizinho, salivando pelos meus beijos, pelo meu corpo nu, pela
minha castidade. Eu toda de difícil nas primeiras ocasiões, porque ele era Padre
e eu menina de coro, até que numa das lições a sua insistência lhe rendeu a
devida recompensa quando permiti que cavalgasse como animal por entre a intimidade
da minha saia casta, que hoje já nem de saias se passeia o mulherio somente de
calças de homem, assim são umas desavergonhadas as de agora. Gozei tanto de o
ver dentro de mim recuperando fôlego no meu peito que não tardei a render-me
aos seus encantos não de Padre, mas de homem, e o Latim passou a ser pecado não
só das terças, como também das segundas, quartas, quintas e sextas. Numa das
lições, depois de se servir de mim tal fera indomável, me segredou ele ao
ouvido
–
Foges comigo Sãozinha?
deixando-me na incerteza de um
–
Não que o paizinho nos matava.
respondido sem jeito.
(arrependo-me?
Depois saiu sem palavra que fosse
para se sumir da vila na manhã seguinte, deixando-me a cargo da abstinência de
quarenta anos sem serventia de homem tão estranha ao mundo destes novos tempos,
assim são umas desavergonhadas as de agora.
Desisto do
Hermano, dá comigo em doida ao invés de me trazer sono. Pego numa das bonequinhas
de porcelana que fui colecionando com os anos na prateleira mais vistosa desta salinha.
Dou comigo penteando-lhe os postiços cabelinhos dourados, como se penteasse os
filhos que nunca tive,
(arrependo-me?
embalando o seu corpinho oco no
meu ventre enquanto vou encostando os seus labiosinhos gélidos de porcelana
contra o meu peito, como se me fizesse a mãe que nunca fui.
(arrependo-me?
Escuto-a chamando-me [redundante: sei que é de
propósito mas o «de propósito» não pode servir de justificação para tudo…]
–
Mãezinha.
não da sua boca inerte, mas lá do
seu coraçãozinho tão vazio de emoção. Fixo-me nos seus olhinhos de vidro
pincelado e, de súbito, me inundam-me o
marido que [eu] nunca quis, os filhos que nunca
tive e a mãe que nunca fui, o pensamento.
[inundam-me o pensamento? Really?]
arrependo-me?)
Tanto, tanto que minto se afirmar
que não morro de arrependimento. A verdade é que não há dia em que um simples Ato
de Contrição rezado de improviso não me faça sentir molhada algures pelas cuecas
de cinta, não que o Senhor Nosso Deus me entusiasme a esse ponto, mas pelo
remorso do Carlos que, por minha culpa, minha tão grande culpa, partiu para bem
longe deixando-me nas costas a cruz do fracasso que sou por entre quarenta anos
de prazer solitário, fingindo a virgindade de eterna menina que vai culpando as
de agora de falta de vergonha quando, no fundo, a desavergonhada sou eu. [Tudo bem: ela é frustrada. Mas a informação é despejada como
uma sucessão – uma cascata – de clichés.]
×××××
Adamastor(zinho).
Os sinos
dobram pelas nove da manhã. A noite trouxe consigo mais um dia calçando o
disfarce de professora. Saia virginal pelo joelho [porquê virginal?], sapatinhos rasos de boa cristã, óculos
de míope carinhosa, penteado curto e grisalho bem à moda da mãezinha. Nada de
decotes descobertos, calças de independência, tintas no cabelo ou saltos de galdéria.
Vou dando aula na sala quinze faz meia hora. Está lotada, como é costume. [Porquê lotada?] Vinte e um rostos de fedelhos
mimados odiando-me [21 é lotada?]
(gostem de mim
que me odeio.
a cada palavra que verbalizo. [Você verbaliza palavras?] Hoje a lição é acerca de
mais um Canto dos Lusíadas, o quarto. Vou fazendo a sua análise estrófica pelos
acetatos que há dez anos eu própria escrevi com a minha letrinha de caderno caligráfico.
É o Canto que lhes vai sair no próximo ponto mas, na gula pelos meus
dezoitos, [??? Qual o interesse para a história?]
tudo faço para que disso não se apercebam. Cá à frente, junto das minhas palavras, organizam-se por
carteiras o Tiaguinho, a Rutinha, a Beatrizinha, o Pedrinho, a Marianinha e o
Carlinhos. São os mais empenhados, costumam até ficar para lá do toque da
campainha expondo-me dúvidas triviais como quem me quer é puxar o lustro. Mais atrás, estão a Sofiazinha, a
Joaninha, o Fabinho e a Verinha, mas apenas de corpo presente, porque basta
virar costas por míseros instantes que para
os escuto ar aos segredinhos troçando da minha
lição.
(gostem de mim que me
odeio.
Ao pé da porta, está o grupinho
dos seis rapazes de pior conduta, o Ruizinho, o Miguelinho, o Dioguinho, o
Ricardinho, o Paulinho e o Marquinho. De quando em vez, vão fazendo um ou outro
gracejo com o condão de pôr toda a classe em profundas gargalhadas, pelo que
essa fama lhes vale assim a proximidade geográfica com a saída. Sobram as três
carteiras encostadas às janelas ocupadas pelo Antoninho, o Nuninho, a Aninha, a
Catarininha e a Clarinha. São os mais caladinhos da classe sem qualquer historial
de mau comportamento, muito embora saiba que me odeiam
tanto como os restantes colegas.
(gostem
de mim que me odeio.
Assim, está revista a classe. Fito,
austera, cada carteira para que haja disciplina e devoção à lição. Mudo
rapidamente de acetato. É a vez do de o pobre Adasmator entrar em cena. Vou descrevendo a
sua figura de monstruosidade lendária, explicando que a sua maldade é fruto de
um amor antigo que virou traição, enaltecendo a
firmeza com que Vasco da Gama lidou com o vilão
que, mais que tudo, gritava por atenção, quando fixo uma das carteiras junto às
janelas. Vejo a Clarinha de cabelinhos dourados dormindo como anjo sobre os
seus braços de adolescência. Fedelha insolente. Aproximo-me em passinhos
severos da sua figura. Estamos frente-a-frente, por fim. Acordo-a com a estridente
violência da pergunta
– Estava a pensar em quem
Clarinha?
enquanto toda a classe nos fixa
silenciosa e bem atenta ao escândalo. Ela eleva então a cabeça fitando-me sem
qualquer respeito no seu olhar negro, para responder segura e triunfante
–
Em si professora.
deixando a classe numa histeria
de risos de desdém. Medindo ainda a métrica do seu insulto ao meu trabalho,
tudo o que me limito a dizer-lhe envergonhada, triste, feia, amargurada, sonsa,
humilhada, estridente, gozada, sozinha, sofrida, ultrapassada, morta,
(gostem
de mim que me odeio.
é
– RUA!
rasgando-lhe um sorriso de
satisfação nos lábios. Olho-me. Odeio-me. Vem-me o diabo do Adasmator ao
pensamento. Como te entendo monstro dos mares,
como faço minha a tua fealdade, como me sinto aberração neste mundo e repentinamente
decido
– Não saia Clarinha. Sente-se.
para seu enorme espanto. Então,
sem soltar palavra alguma, saio [eu] porta fora VÍRGULA: PAUSA IMPORTANTE implorando quase de joelhos
gostem
de mim que me odeio.)
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