Veredicto: Ai, Rute, como comentar este longo, desequilibrado e curioso conto? Para começar, é gótico. Isso percebe-se pelo título e pelo narrador. O twist na página 4 («Não te consigo deixar partir», sensivelmente a um terço do conto) é bom. Já os saltos para o «narrador monisciente, real ou imaginário, nem tanto. Quando o narrador é alguém perturbado, o autor tem um problema: até que ponto tem aquela personagem de cumprir as convenções literárias? Este conto está cheio de desequilíbrios até certo ponto justificados pelo presumível desequilíbrio da pessoa que conta, e pela ambiguidade de não sabermos o que aconteceu - mas suspeitarmos, porque já lemos muito Edgar Alan Poe, que quem narra pode também ser quem matou. Não gosto das opções de pontuação: há vírgulas onde não são precisas, e vice-versa. Mais uma vez, a liberdade na voz de quem narra: se a Rute me disse «Ah, mas é assim que esta pessoa fala», calo-me.
Em suma: acho bem a loucura do texto, uma leitura em voz alta ajudaria a unificar - «coerentizar» - esta voz. Para mim, quem conta tem um parafuso a menos, e essa é a piada. Evite os jogos literários: Kafka, Graham Greene e Brett Easton Ellis são forçados.
Percebo finalmente a metamorfose de Kafka. Parto
vertiginosamente para a completa alienação. [Cadê a utilidade?]
Nestas letras Times, envio-te pelos algoritmos da Net, como uma foto grafia, permanecerás emoldurada na
janela do mundo.
Dispo o fato de
narrador moral e paternalista, envergando uma indumentária casual de hipster.
Sou um narrador
contemporâneo, recuso as omnisciências e omnipresenças, quero ser independente,
ocupar o lugar que me é devido na narrativa.
Tenho este estilo
urbano, autêntico, sem ligações, solto-me numa visão alternativa da escrita
criativa.
Sigo mais a
sensibilidade das minorias, que as sensações das massas, não sou filiado no
sindicato dos narradores, eu sou precário na história, free lancer, trabalho ao Parágrafo, à linha, à letra.
Componho o conto na
forma, ouso passar as barreira, dou pontapés na gramática, só porque não quero
a fama, nem a propriedade! [Quanto
mais compacto, mais forte o conto.]
Dispo-me, tiro o casaco, o sangue vivo é agora escuro, feio, morto.
Se eu, Ou eu, que morro refém da memória do que já foste? [No mesmo parágrafo]
Fazia dos volumes do Blake uma escada para te ir buscar ao oculto, iria com
Milton em busca do Paraíso Perdido,
para neste verso branco, em prosa, poder elogiar-te sem rima, nem talento. Um
conto literário? Na era da Globalização?
Eu aqui no dropping do name, a mandar-te como mercadoria para a selva literária.
Apareço eu, o narrador outra vez, oculto-me entre estes ciprestes de humanidade, vou
espreitar no outro site, já só ficou
o soalho manchado.
Pergunto ao autor se é necessário
descrever assim a personagem, uma personagem que criou já morta.
Raios partam estes autores egoístas,
convencidos que dominam a originalidade.
Querem ser originais. Fiquem quietos.
Apagados do mundo. Sentados no seu lugar.
Tu Joana, estás morta. Eu, viva!
Em suma: acho bem a loucura do texto, uma leitura em voz alta ajudaria a unificar - «coerentizar» - esta voz. Para mim, quem conta tem um parafuso a menos, e essa é a piada. Evite os jogos literários: Kafka, Graham Greene e Brett Easton Ellis são forçados.
Corre sangue no soalho
Corre sangue no soalho mas ninguém sabe
quem a matou. Subo a escadaria a correr, voando nos degraus de dois em dois. A
porta já está aberta.
O corpo. Já só o corpo dela!
Atiro-me, com força, para o que resta dela
PONTUAÇÃO quero sentir o sangue ainda quente na
minha pele, os beijos que já não me vai dar.
Fico ali. Abraço-a! Tenho o coração
a quinhentos à hora, corre forte pelas minhas veias, sangue meu. Desagua nas
válvulas claudicantes de um coração apertado.
Queria
congelar este momento, nestas páginas, em cada letra, como vogal ou consoante
quero tê-la aqui para sempre.
Ao menos aqui, posso ter o seu sorriso grande outra
vez, vê-la a olhar para mim com aqueles olhos brilhantes, tão brilhantes de
paixão, que me faziam esvair-me de excitação.
Esta mulher, que um dia me disse:
-
Eu vou cuidar de
ti!
A quem implorei que fosse só para mim minha. Eu que lhe pedi tudo. Agora que a tenho toda só
para mim, nem chorar consigo.
Sinto passos, vozes e sussurros à minha volta.
Parecem borboletas com as suas cores.
Dentro da minha cabeça como
preso na vogal do ó [???] instala-se
um silêncio ensurdecedor.
Fui
fazer aquele curso de dança, maldita a hora, todas as segundas e sextas quando
chegava a casa, já ela dormia, já não a queria
incomodar... PONTUAÇÃO
Agora faço o passo doble e o fox trot PONTUAÇÃO
vou em dois, um, dois, dois um, para a valsa
e troco o ‘v’ pelo ‘f’ para chamar falsa à vida!
[rebuscado…]
Ela morta, e eu, PONTUAÇÃO ainda sei o que está a pensar. Não chores,
pensa ela, não chores por mim. Não choro.
Como
se conseguisse chorar, estou ali em cima do corpo dela, aqui nestas páginas
todas em branco, em cada vírgula, uma curva do corpo dela, em cada ponto um
beijo, exclamo! Reclamo
todos e cada um dos êxtases dela. Amo-a. É isso.
Encho o peito de ar. Cubro
este branco com a mancha da prosa, desenho, entre vírgulas, o meu
respirar. [Não gosto…]
Só respiro nos pretos. Como aquela nossa brincadeira
quando íamos na calçada e dizíamos:
-
Eu só piso as
pretas, pisa tu, só as brancas! PONTUAÇÃO
Estamos afinal ainda aqui na mesma brincadeira, eu
só a respirar nos pretos e tu, minha querida, já sem respirar nos espaços em
branco.
Estás, no entanto, em cada respiração minha, estas
linhas são todas, só para ti.
És tu só para mim.
Ainda
lembro do dia em que te conheci, quando falámos na net, quando a troca de
promessas de amor virtual, se tornou virtualmente neste amor comprometido.
E depois, quando te vi pela primeira vez, naquele dia em íamos ao cinema ver o filme do Facebook,
comprei os bilhetes que nunca utilizámos, ainda hoje, aqui, enquanto me morres,
estão na minha carteira intactos.
Como é que te
pude mentir tanto, dizer que te levava a Veneza, Paris, a Tóquio e a Nova
Iorque. [Falta ponto de interrogação] Eu ia
levar-te quando tivesse tempo. Levo-te agora a passear numa gôndola de ficção. [Bom]
Sentes, meu amor? As águas serenas de Veneza, com a
minha mão na tua. ?
O sangue a
escorrer-te nem sei bem por onde, mas encharca-me as roupas e estranhamente
aquece-me o corpo, conforta-me que haja ainda algum movimento em ti.
Eu vou ficar aqui.
Por
que terás vindo aqui a este apartamento na baixa? Certamente que vieste para me
fazer uma surpresa, como sempre gostavas de fazer.
Alugavas quartos onde fazíamos amor, contávamos
histórias de outros casais, desempenhávamos os papéis,
o amor sempre o amor. A nossa fantasia, o que mais me excitava em ti era esse
teu corpo tão torneado, que ia ficando húmido ao meu toque, quente, e o que eu
adorava como ele dançava entre o teu sexo e as minhas
mãos. [O corpo dela?!] Embalava-te o sexo devagar, os nossos corpos enxutos, PONTUAÇÃO: cortar vírgula começavam a ganhar a
humidade da excitação.
Eram horas e horas de prazer animal, eu deixava-me
ir, PONTUAÇÃO: cortar vírgula para outras
dimensões de outros sentidos e sensações, em arrebatamento gritava, grunhia
sons de êxtase irrepetíveis, perdia-me, caía, ia para outros lugares, de onde
sempre me resgataste com vida....em exaustão!
Por onde andarás agora tu, minha querida, para que
lugares te mandaram, sem que eu pudesse ir também?
Aceito! Nem queria imaginar-te aqui no meu lugar, o
sofrimento que isso te causaria.
Prefiro assim. Eu a sofrer por ti.
-
Olha, eu sei que
tu me amas, mas isso não chega, eu preciso de mais, percebes? – dizias-me zangada há um ano.
-
Eu sei, eu sei, meu amor, eu não sou capaz de
mais, eu não consigo ter uma relação! – menti-te. [Coerência…]
-
Não és capaz, ou
não queres?
-
Eu quero, sei
lá, se calhar não quero, mas quero ser capaz!
-
Oh Meu Deus, eu não quero isto para mim, não me chega!
-
Mas amo-te, não
te chega, porquê? – Dizia-te
sem convicção. – O que é que
queres mais de mim? – dizia-te sem convicção.
Querias tudo a que tinhas direito. Que assumisse a
relação que tinha contigo, e eu não fui capaz.
Fui arranjando
desculpas, depois fui-me convencendo delas. Foste-te fingindo que esperavas, mas foste-te
afastando, ia-te perdendo. Perdi-te!
Agora vou fazer de conta. Vou assumir. Queres melhor
VÍRGULA Joana?
Não te consigo deixar partir. Eu não podia assumir uma relação lésbica,
sou demasiado homofóbica para admitir que eu VÍRGULA a
mulher fatal, a mais sexy das mulheres, se apaixonou perdidamente por outra
mulher, por ti, só por ti!
Pudesse chamar, agora, o super-homem e pedia-lhe
para ele rodear a Terra, fazer o tempo andar para trás.....até
àquele momento, ontem na cama em que eu te levei
até ao cume, devagar, tão devagar....que me deixei ir também. Adormecemos.
Como agora. Dormimos aqui, o sono dos mortos. Tu já
morta matada, eu ainda morta morrida.
Já andam aqui os abutres da funerária, conheço-os pelos sapatos, querem-te levar já,
dizem que te levam para a medicina legal, medicina?
Peço mais um momento! Imploro-lhes que me deixem a
sós. Acedem.
Lembras-te querida? Quando te dizia que ia escrever
um conto sobre nós?
É o que estou
a fazer.
Tu a morrer, e eu? A imortalizar-te. Agarrada a ti e
ao conto, como se ficasses para sempre viva.
Eu para sempre agarrada a ti, ancorada no teu
sorriso enorme.
Em breve chegará a tua família. Vou fugir, como sempre
fugi, fingir que nada eras, quando já te foste, acompanho-te neste último
caminho, até que a última gota de sangue vá do teu corpo ao meu. Fico com os
restos mortais.
Eu VÍRGULA que sou
Católica, revolto-me com Deus, irada rogo-lhe pragas, e entrego-lhe o teu corpo
inerte. [Graham Greene, O Fim da Aventura]
- Fica com isto, ladrão, leva-me daqui este corpo vazio! – berro.
Saio sem dizer nem mais uma palavra, desço as
escadarias a correr, atiro-me para as ruas da baixa, sinto-me completa, ando
devagar e segura, no meio das gentes vivas, estou coberta do teu sangue.
Manchada! Destroçada! Viva!
Corro para o parque e entro no meu carro, olho para
o teu banco, onde ainda estão cabelos teus, a tua garrafa de água vazia, tiro a
capota, e vou em grande velocidade para a estrada.
O vermelho dos semáforos provoca-me uma excitação
incompreensível, como se o teu olhar estivesse em cada luz vermelha.
Acelero em fuga em direcção ao mar, o nosso mar,
naquelas ondas onde fomos sempre tão felizes.
Quando nos sentávamos a olhar os nossos passarinhos,
aqueles pontinhos saltitantes que nunca molhavam os pezinhos.
Vou pela marginal, correm-me as lágrimas sem querer,
não tenho vontade de chorar.
A música toca alto na telefonia, ouço a tua voz a
cantar, o teu cheiro no meu corpo, leva-me a uma excitação incontrolável.
Masturbo-me!
Quarta, quinta e mantenho os 120km/h, reduzo para
terceira, só para juntar ao meu, o grunhir do motor.
Começo a sentir o cheiro da maresia, já estou quase
no Guincho, guincho forte o orgasmo,
naquele ponto em que tu, minha querida, punhas o braço de fora e dizias sempre:
- Já viste a diferença da temperatura?
Ríamos das minhas parvoíces!
Dá-me vontade de rir, de ti, da vida, do amor entre
nós, como é que eu me fui apaixonar assim
por uma mulher?
De um
momento para o outro beijei-te na boca, pedi-te namoro. E depois nunca mais te
larguei. Nem pensei que eras uma mulher.
Naquela noite, no meu quarto, o susto que eu
apanhei, lembras-te, amor? Depois de termos feito amor tantas vezes....apercebi-me que o corpo onde eu me perdia era um corpo de
mulher.
Rimos, tanto!
Repara na mancha literária, apesar de justificado,
vou deixando no texto, buracos brancos.
Como na pauta musical, são os silêncios, é aí que tu
estás agora, nos espaços que não ocupei.
Parto em fúria na conquista dos caracteres, prego a
fundo em direcção ao nosso lugar.
Travo o carro sem cuidado, saio a correr em direcção
à praia.
Peço ao vento que me envolva, às nuvens que te
recebam e atiro-me para areia exausta.
Faço
batota nesta ficção, conto sem talento, um amor espontâneo, faço de conta que
foi forte e selvagem.
Foi muito sofrido, mais por ti, querida, mas também
por mim. Foi também feito de desencontros, enganos e traições.
Eu que te queria só para mim. Adormeço!
Deixo o leitor à espera enquanto esgotada estou estendida na praia, agora narrador omnisciente, faço um plano aéreo, daqueles que
só a nova paisagem tecnológica nos possibilitou. [Desnecessário…]
Este corpo atirado numa praia deserta, todo
ensanguentado, ainda mal enterrado, depois pego na câmara da narrativa que peço
emprestada à tele visão e vou pelos labirintos, os corredores da tecno lógica em velocidade alucinante para mostrar
o corpo morto caído no soalho, com gente à volta sem pudor, que tratam o resto
mortal, como um objecto, como se houvesse uma razão maldita, um conto policial.
Passo horas nesta pele, a dar pistas, alguém, tirar vírgula começa a dizer que não há vestígios de
outra pessoa, não há esperma na vítima.
Vítima? Agora morta é que se torna vítima, em vida
sofreu as mais variadas discriminações, mas é agora que um bando de
especialistas, vem colocar o rótulo, a papeleta.
Acordo.
Nem sonhei. O tempo parece ter parado.
Tenho tanto calor.
Morreste-me mesmo.
Estarás agora onde? Eu aqui a ver-te em cada grão de
areia. As tuas gargalhadas nas ondas do mar.
Nojo!
Luto.
Pela minha vida, tento limpar-me da tua morte.
Devagar tiro cada uma das minha peças de roupa.
Depois do casaco, a Sweatshirt,
depois o top Armani, o soutien.
[Brett Easton Ellis tem a patente…]
Fico parada de jeans
e com as mamas ao vento. Estou cheia de areia. O sangue seco já misturado com a
areia forma uma papa horrível.
É isto que resta de ti, Joana?
Saco o cinto Gucci, como se
fosse um strip erótico, sádica
atiro-o para longe.
Descalço-me devagar, os ténis Nike,
vão um para cada lado, como nós querida, eu aqui e tu.....naquele soalho!
Sinceramente não sei quem vive mais. se tu Tu, que
ficarás no gesto em cada pensamento meu?
Tanta conversa sempre, tanta teoria, tanta trampa.
Todo o tempo perdido.
Podíamos ter perdido o tempo a beijar-nos uma à outra.
Passeado pelas paisagens dos nossos corpos ainda
vivos.
Deixei-te morrer.
Fui eu que te deixei morrer.
Tive que ir pintar o cabelo, olha que bom, agora o
cabelo negro, todo pintado.
Vês? Que bem que fiquei.....para o teu funeral!
Não te quero ver mais, para mim já não és tu.
Fico aqui, a brincar na nossa areia.
- Joana querida, minha querida, vamos à beira
mar, molhar os pés?
- Anda
amor. Vamos! – dizias na tua voz doce.
Olhavas sempre o horizonte, eu punha os meus nos
teus olhos para ver como o mundo era vasto.
Na tua simplicidade, deste-me o amor que nunca
ninguém me deu.
-
Joana, Joana, querida, cuida de mim agora!
Tu disseste-me que ias sempre cuidar de mim,
mentiste?
Começo frenética a mandar-te mensagens do telemóvel.
Fico ali de joelhos a enviar e a enviar.....como se ainda te pudesse apanhar!
Nada!
Tenho o telefone carregado de chamadas perdidas,
todas das tuas amigas, porque as minhas nunca souberam de ti.
Atiro também o Blackberry
para longe de mim. [Agora? Havia Blackberry?]
Quero ficar ali no quente do areal, como quente
estive sempre no teu corpo.
Eu amor, amei-te mais do que devia.
Sempre soube que ia acabar mal.
Luto.
Nojo.
Sobrevivo, corro desengonçada para o mar.
No caminho ainda tiro as calças.
E fico ali no ondular a rebolar.
Para cima e para baixo.
Estou banhada nas minhas lágrimas, com as do mar,
entre a areia, lixada, gelada.
Tenho medo!
Fiquei sem lugar.
Choro, vou em direcção ao mar revolto, mergulho
fundo, deixo-me enrolar nas ondas, ando perdida naquela distracção, vou
limpando as feridas, luto por respirar, às vezes engulo água.
Fico naquele perigoso jogo, como se fosse até à
fronteira entre a vida e a morte e..... ainda te pudesse ver, dizer adeus, ver
esse teu sorriso enorme.
Mas não, estou aqui a escrever para um leitor
maldito, para não te faltar ao prometido.
Tu que me deste
tudo, discutimos tanto, falámos tanto na minha sexualidade, tu nunca te
importaste com isso. Nem ligavas.
Eu a
perguntar-te se era lésbica, e tu? Meu amor tu dizias com toda a certeza:
-
Claro que não!
E não era, ou
não importa esse ser ou não ser, importava que te amava. Assim para alem do
género. [Bom.]
O mar acalmou, o sol abrasou a minha pele. Tu morta.
Eu molhada.
O dia escuro.
Cruel destino.
Fui adiando a vida, como se pudesse adiar também a
morte.
Estou tão sozinha, pequenina. Pudesses nascer outra
vez e...eu ia até à Índia reunir-me contigo na religião Hindu.
Como é que isto tudo foi
foi tudo isto possível? Houvesse justiça no mundo e teria levado todos os doentes terminais ???, deixava-te
aqui, comigo, num lugar que tinha para ti.
Adiei tanto, não foi?
Olho seminua o céu, consigo ler mensagens divinas,
como códigos de barras vão-se alinhando as sombras. No crepuscular começo a
gritar.
Chamo aos berros por Deus e pela sua força.
-
Deus, Deus, Ó
meu Deus!!!!!!
Levaram o corpo inerte para a medicina legal.
Avisaram a família, os amigos começam a saber a notícia,
vão-se juntando confortando-se uns aos outros, fazem a página do adeus no
Facebook, com os comentários a atingir números astronómicos.
Joana era uma pessoa mais que querida. Saudável.
Equilibrada.
Não vou descrever as razões teóricas que fundamentam
o autor, o Heidegger, sempre o Heidegger, como se não houvesse o Husserl, eu
narrador alternativo, passo o recibo verde e engulo em seco.
Cabe dar, informar, colocar na forma e não
questionar o contido.
Joana tomou a bica na Brasileira, tirou uma fotografias
na baixa, viu uma varanda com uma vista para um pormenor de uma colcha,
bordada, num prédio estendida.
A curiosidade não a deteve.
Tocou à campainha. Subiu as escadas.
À porta do apartamento, explicou lá para dentro, que
queria ir tirar uma fotografia à varanda.
O homem, jovem apressado e com simpatia pela arte,
abriu-lhe a porta, deixou-a entrar.
Levou-a até à varanda e deixou-a sozinha a tirar as
fotografias.
Este homem na pressa de ir para um reunião correu
para o quarto para trocar a roupa do ginásio por um fato e gravata.
Neste, preciso, momento, entra a mulher, ainda à porta de casa vê o marido
sem roupa no quarto e na varanda, uma mulher. Joana!
Corre para a gaveta onde guardava a calibre 22 e
quando Joana entra com a câmara na mão, a mulher desvairada aponta e dispara um
tiro certeiro, mesmo no meio do crânio da Joana.
O corpo caiu como um estrondo no chão.
O narrador retira-se com a brutalidade de um
cangalheiro.
-
Meu Deus!
Explica-me, será que a Joana se matou?
Ninguém lhe poderia querer mal.
Resta-me a dúvida para sempre. Nem quero saber. Eu
sei lá.
Vomito.
Corro para casa e sento-me ao computador.
Desligo-me da rede, não
quero mais saber dos status, nem das culpas e desculpas dos jornais
e das revistas que já têm pouco de cor de rosa.
Sinto da rua, o cheiro a enxofre, procuro na minha
tabela periódica onde se situará o dito, dava-me agora um jeitão estar na net,
sem esforço, pedir à wiki informações a
todo o gás.
Assim, respiro gaseada uma incógnita, em cada lufada
de ar, sinto os pulmões a inchar, os alvéolos em danças ganzadas.....com a
pleura relaxada.
Saudades do outro tempo, de Veneza no Carnaval, do
Montecarlo no Verão, de NY em qualquer estação.
Olho a luz intensa do sol, e na cegueira, Lisboeta,
com a sua cadência, adivinhando o prefixo, dos próximos meses.....
Se fosse uma letra eu? queria ser o a, vogal, com voz em quase todas as
palavras, do amor à inteligência, ser o princípio de uma e o fim da outra!
Ai que quem me dera ser um fado, gostava de sair forte da
boca do Camané, percorrer aquele caminho veloz entre o ventre, subindo a
traqueia e sair, expelida com o gemido saudoso do destino da boca do fadista,
inundar a sala.....e depois ir entrando em tímpanos, provocando sensações,
faiscazinhas em terminais nervosos.
Enfiada neste corpo, com limites de movimento, em
voo de ficcionais devaneios, fantasias sem erotismo, desço fundo cada um dos
degraus, para chegar à cave da pornografia, encontro os tesouros do
prazer....eu sou livre, sem ligação, apenas no ritmo acelerado da minha
passada.
Paro ao sol
sentido, o meu, prolapso da válvula mitral, aquele click, único, mecânico, um escape tácito para a
correria desvairada, sanguinária que faz jogging
pelo mapa, sistema venoso.....pudesse
eu deixar este, e ocupar outro corpo, habituar-me à juventude outra vez, despir
a minha pele de carneiro com os olhos de quem está mal morto.....e envergar o
lobo mau, auuuuuu
Uivar à Lua a noite inteira, amansando o meu
instinto fatal!
Comer-te toda, rasgar-te camada a camada, como quem
arranca as folhas de um livro, roer-te até ao osso numa só mordida.
Tu Joana, estás viva! Eu, morta.