quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Revisão 3: Rute Serôdio Simões: Corre sangue no soalho

Veredicto: Ai, Rute, como comentar este longo, desequilibrado e curioso conto? Para começar, é gótico. Isso percebe-se pelo título e pelo narrador. O twist na página 4 («Não te consigo deixar partir», sensivelmente a um terço do conto) é bom. Já os saltos para o «narrador monisciente, real ou imaginário, nem tanto. Quando o narrador é alguém perturbado, o autor tem um problema: até que ponto tem aquela personagem de cumprir as convenções literárias? Este conto está cheio de desequilíbrios até certo ponto justificados pelo presumível desequilíbrio da pessoa que conta, e pela ambiguidade de não sabermos o que aconteceu - mas suspeitarmos, porque já lemos muito Edgar Alan Poe, que quem narra pode também ser quem matou. Não gosto das opções de pontuação: há vírgulas onde não são precisas, e vice-versa. Mais uma vez, a liberdade na voz de quem narra: se a Rute me disse «Ah, mas é assim que esta pessoa fala», calo-me. 
Em suma: acho bem a loucura do texto, uma leitura em voz alta ajudaria a unificar - «coerentizar» - esta voz. Para mim, quem conta tem um parafuso a menos, e essa é a piada. Evite os jogos literários: Kafka, Graham Greene e Brett Easton Ellis são forçados. 

Corre sangue no soalho   


       Corre sangue no soalho mas ninguém sabe quem a matou. Subo a escadaria a correr, voando nos degraus de dois em dois. A porta já está aberta.
O corpo. Já só o corpo dela!
Atiro-me, com força, para o que resta dela PONTUAÇÃO quero sentir o sangue ainda quente na minha pele, os beijos que já não me vai dar.
Fico ali. Abraço-a! Tenho o coração a quinhentos à hora, corre forte pelas minhas veias, sangue meu. Desagua nas válvulas claudicantes de um coração apertado.

      Queria congelar este momento, nestas páginas, em cada letra, como vogal ou consoante quero tê-la aqui para sempre.
Ao menos aqui, posso ter o seu sorriso grande outra vez, vê-la a olhar para mim com aqueles olhos brilhantes, tão brilhantes de paixão, que me faziam esvair-me de excitação.
Esta mulher, que um dia me disse:
-         Eu vou cuidar de ti!
A quem implorei que fosse só para mim minha. Eu que lhe pedi tudo. Agora que a tenho toda só para mim, nem chorar consigo.
Sinto passos, vozes e sussurros à minha volta. Parecem borboletas com as suas cores.
Percebo finalmente a metamorfose de Kafka. Parto vertiginosamente para a completa alienação.    [Cadê a utilidade?]
Dentro da minha cabeça como preso na vogal do ó [???] instala-se um silêncio ensurdecedor.

        Fui fazer aquele curso de dança, maldita a hora, todas as segundas e sextas quando chegava a casa, já ela dormia, já não a queria incomodar... PONTUAÇÃO
Agora faço o passo doble e o fox trot PONTUAÇÃO vou em dois, um, dois, dois um, para a valsa e troco o ‘v’ pelo ‘f’ para chamar falsa à vida! [rebuscado…]
Ela morta, e eu, PONTUAÇÃO ainda sei o que está a pensar. Não chores, pensa ela, não chores por mim. Não choro.
        Como se conseguisse chorar, estou ali em cima do corpo dela, aqui nestas páginas todas em branco, em cada vírgula, uma curva do corpo dela, em cada ponto um beijo, exclamo! Reclamo todos e cada um dos êxtases dela. Amo-a. É isso.
Encho o peito de ar. Cubro este branco com a mancha da prosa, desenho, entre vírgulas, o meu respirar. [Não gosto…]
Só respiro nos pretos. Como aquela nossa brincadeira quando íamos na calçada e dizíamos:
-         Eu só piso as pretas, pisa tu, só as brancas! PONTUAÇÃO
Estamos afinal ainda aqui na mesma brincadeira, eu só a respirar nos pretos e tu, minha querida, já sem respirar nos espaços em branco.
Estás, no entanto, em cada respiração minha, estas linhas são todas, só para ti.
És tu só para mim.

         Ainda lembro do dia em que te conheci, quando falámos na net, quando a troca de promessas de amor virtual, se tornou virtualmente neste amor comprometido.
E depois, quando te vi pela primeira vez, naquele dia em íamos ao cinema ver o filme do Facebook, comprei os bilhetes que nunca utilizámos, ainda hoje, aqui, enquanto me morres, estão na minha carteira intactos.
Como é que te pude mentir tanto, dizer que te levava a Veneza, Paris, a Tóquio e a Nova Iorque. [Falta ponto de interrogação] Eu ia levar-te quando tivesse tempo. Levo-te agora a passear numa gôndola de ficção. [Bom]
Sentes, meu amor? As águas serenas de Veneza, com a minha mão na tua. ?
    O sangue a escorrer-te nem sei bem por onde, mas encharca-me as roupas e estranhamente aquece-me o corpo, conforta-me que haja ainda algum movimento em ti.
Eu vou ficar aqui.

              Por que terás vindo aqui a este apartamento na baixa? Certamente que vieste para me fazer uma surpresa, como sempre gostavas de fazer.
Alugavas quartos onde fazíamos amor, contávamos histórias de outros casais, desempenhávamos os papéis, o amor sempre o amor. A nossa fantasia, o que mais me excitava em ti era esse teu corpo tão torneado, que ia ficando húmido ao meu toque, quente, e o que eu adorava como ele dançava entre o teu sexo e as minhas mãos. [O corpo dela?!] Embalava-te o sexo devagar, os nossos corpos enxutos, PONTUAÇÃO: cortar vírgula começavam a ganhar a humidade da excitação.
Eram horas e horas de prazer animal, eu deixava-me ir, PONTUAÇÃO: cortar vírgula para outras dimensões de outros sentidos e sensações, em arrebatamento gritava, grunhia sons de êxtase irrepetíveis, perdia-me, caía, ia para outros lugares, de onde sempre me resgataste com vida....em exaustão!
Por onde andarás agora tu, minha querida, para que lugares te mandaram, sem que eu pudesse ir também?
Aceito! Nem queria imaginar-te aqui no meu lugar, o sofrimento que isso te causaria.
Prefiro assim. Eu a sofrer por ti.
-         Olha, eu sei que tu me amas, mas isso não chega, eu preciso de mais, percebes? – dizias-me zangada há um ano.
-          Eu sei, eu sei, meu amor, eu não sou capaz de mais, eu não consigo ter uma relação! – menti-te. [Coerência…]
-         Não és capaz, ou não queres?
-         Eu quero, sei lá, se calhar não quero, mas quero ser capaz!
-         Oh Meu Deus, eu não quero isto para mim, não me chega!
-         Mas amo-te, não te chega, porquê? Dizia-te sem convicção. – O que é que queres mais de mim? dizia-te sem convicção.
Querias tudo a que tinhas direito. Que assumisse a relação que tinha contigo, e eu não fui capaz.
Fui arranjando desculpas, depois fui-me convencendo delas. Foste-te fingindo que esperavas, mas foste-te afastando, ia-te perdendo. Perdi-te!
Agora vou fazer de conta. Vou assumir. Queres melhor VÍRGULA Joana?

               Não te consigo deixar partir. Eu não podia assumir uma relação lésbica, sou demasiado homofóbica para admitir que eu VÍRGULA a mulher fatal, a mais sexy das mulheres, se apaixonou perdidamente por outra mulher, por ti, só por ti!
Pudesse chamar, agora, o super-homem e pedia-lhe para ele rodear a Terra, fazer o tempo andar para trás.....até àquele momento, ontem na cama em que eu te levei até ao cume, devagar, tão devagar....que me deixei ir também. Adormecemos.
Como agora. Dormimos aqui, o sono dos mortos. Tu já morta matada, eu ainda morta morrida.
Já andam aqui os abutres da funerária,  conheço-os pelos sapatos, querem-te levar já, dizem que te levam para a medicina legal, medicina?
Peço mais um momento! Imploro-lhes que me deixem a sós. Acedem.
Lembras-te querida? Quando te dizia que ia escrever um conto sobre nós?
 É o que estou a fazer.
Tu a morrer, e eu? A imortalizar-te. Agarrada a ti e ao conto, como se ficasses para sempre viva.
Eu para sempre agarrada a ti, ancorada no teu sorriso enorme.

              Nestas letras Times, envio-te pelos algoritmos da Net, como uma foto grafia, permanecerás emoldurada na janela do mundo.
Em breve chegará a tua família. Vou fugir, como sempre fugi, fingir que nada eras, quando já te foste, acompanho-te neste último caminho, até que a última gota de sangue vá do teu corpo ao meu. Fico com os restos mortais.
Eu VÍRGULA que sou Católica, revolto-me com Deus, irada rogo-lhe pragas, e entrego-lhe o teu corpo inerte. [Graham Greene, O Fim da Aventura]
       - Fica com isto, ladrão, leva-me daqui este corpo vazio! – berro.
Saio sem dizer nem mais uma palavra, desço as escadarias a correr, atiro-me para as ruas da baixa, sinto-me completa, ando devagar e segura, no meio das gentes vivas, estou coberta do teu sangue. Manchada! Destroçada! Viva!
Corro para o parque e entro no meu carro, olho para o teu banco, onde ainda estão cabelos teus, a tua garrafa de água vazia, tiro a capota, e vou em grande velocidade para a estrada.
O vermelho dos semáforos provoca-me uma excitação incompreensível, como se o teu olhar estivesse em cada luz vermelha.
Acelero em fuga em direcção ao mar, o nosso mar, naquelas ondas onde fomos sempre tão felizes.
Quando nos sentávamos a olhar os nossos passarinhos, aqueles pontinhos saltitantes que nunca molhavam os pezinhos.
Vou pela marginal, correm-me as lágrimas sem querer, não tenho vontade de chorar.
A música toca alto na telefonia, ouço a tua voz a cantar, o teu cheiro no meu corpo, leva-me a uma excitação incontrolável. Masturbo-me!
Quarta, quinta e mantenho os 120km/h, reduzo para terceira, só para juntar ao meu, o grunhir do motor.
Começo a sentir o cheiro da maresia, já estou quase no Guincho, guincho forte o orgasmo, naquele ponto em que tu, minha querida, punhas o braço de fora e dizias sempre:
 -  Já viste a diferença da temperatura?
Ríamos das minhas parvoíces!
Dá-me vontade de rir, de ti, da vida, do amor entre nós, como é que eu me fui apaixonar assim  por uma mulher?

         De um momento para o outro beijei-te na boca, pedi-te namoro. E depois nunca mais te larguei. Nem pensei que eras uma mulher.
Naquela noite, no meu quarto, o susto que eu apanhei, lembras-te, amor? Depois de termos feito amor tantas vezes....apercebi-me que o corpo onde eu me perdia era um corpo de mulher.
Rimos, tanto!
Repara na mancha literária, apesar de justificado, vou deixando no texto, buracos brancos.
Como na pauta musical, são os silêncios, é aí que tu estás agora, nos espaços que não ocupei.
Parto em fúria na conquista dos caracteres, prego a fundo em direcção ao nosso lugar.
Travo o carro sem cuidado, saio a correr em direcção à praia.
Peço ao vento que me envolva, às nuvens que te recebam e atiro-me para areia exausta.

             Faço batota nesta ficção, conto sem talento, um amor espontâneo, faço de conta que foi forte e selvagem.
Foi muito sofrido, mais por ti, querida, mas também por mim. Foi também feito de desencontros, enganos e traições.
Eu que te queria só para mim. Adormeço!

                Deixo o leitor à espera enquanto esgotada estou estendida na praia, agora narrador omnisciente, faço um plano aéreo, daqueles que só a nova paisagem tecnológica nos possibilitou. [Desnecessário…]
Este corpo atirado numa praia deserta, todo ensanguentado, ainda mal enterrado, depois pego na câmara da narrativa que peço emprestada à tele visão  e vou pelos labirintos, os corredores da tecno lógica em velocidade alucinante para mostrar o corpo morto caído no soalho, com gente à volta sem pudor, que tratam o resto mortal, como um objecto, como se houvesse uma razão maldita, um conto policial.
Passo horas nesta pele, a dar pistas, alguém, tirar vírgula começa a dizer que não há vestígios de outra pessoa, não há esperma na vítima.
Vítima? Agora morta é que se torna vítima, em vida sofreu as mais variadas discriminações, mas é agora que um bando de especialistas, vem colocar o rótulo, a papeleta.
Dispo o fato de narrador moral e paternalista, envergando uma indumentária casual de hipster.
Sou um narrador contemporâneo, recuso as omnisciências e omnipresenças, quero ser independente, ocupar o lugar que me é devido na narrativa.
Tenho este estilo urbano, autêntico, sem ligações, solto-me numa visão alternativa da escrita criativa.
Sigo mais a sensibilidade das minorias, que as sensações das massas, não sou filiado no sindicato dos narradores, eu sou precário na história, free lancer, trabalho ao Parágrafo, à linha, à letra.
Componho o conto na forma, ouso passar as barreira, dou pontapés na gramática, só porque não quero a fama, nem a propriedade! [Quanto mais compacto, mais forte o conto.]
Acordo.
Nem sonhei. O tempo parece ter parado.
Tenho tanto calor.
Morreste-me mesmo.
Estarás agora onde? Eu aqui a ver-te em cada grão de areia. As tuas gargalhadas nas ondas do mar.
Dispo-me, tiro o casaco, o sangue vivo é agora escuro, feio, morto.
Nojo!
Luto.
Pela minha vida, tento limpar-me da tua morte.
Devagar tiro cada uma das minha peças de roupa. Depois do casaco, a Sweatshirt, depois o top Armani, o soutien. [Brett Easton Ellis tem a patente…]  
Fico parada de jeans e com as mamas ao vento. Estou cheia de areia. O sangue seco já misturado com a areia forma uma papa horrível.
É isto que resta de ti, Joana?
Saco o cinto Gucci, como se fosse um strip erótico, sádica atiro-o para longe.
Descalço-me devagar, os ténis Nike, vão um para cada lado, como nós querida, eu aqui e tu.....naquele soalho!
Sinceramente não sei quem vive mais. se tu Tu, que ficarás no gesto em cada pensamento meu?
Se eu, Ou eu, que morro refém da memória do que já foste? [No mesmo parágrafo]
Tanta conversa sempre, tanta teoria, tanta trampa. Todo o tempo perdido.
Podíamos ter perdido o tempo a beijar-nos uma à outra.
Passeado pelas paisagens dos nossos corpos ainda vivos.
Deixei-te morrer.
Fui eu que te deixei morrer.
Tive que ir pintar o cabelo, olha que bom, agora o cabelo negro, todo pintado.
Vês? Que bem que fiquei.....para o teu funeral!
Não te quero ver mais, para mim já não és tu.
Fico aqui, a brincar na nossa areia.
    -  Joana querida, minha querida, vamos à beira mar, molhar os pés?
    - Anda amor. Vamos! – dizias na tua voz doce.
Olhavas sempre o horizonte, eu punha os meus nos teus olhos para ver como o mundo era vasto.
Na tua simplicidade, deste-me o amor que nunca ninguém me deu.
         - Joana, Joana, querida, cuida de mim agora!
Tu disseste-me que ias sempre cuidar de mim, mentiste?
Começo frenética a mandar-te mensagens do telemóvel. Fico ali de joelhos a enviar e a enviar.....como se ainda te pudesse apanhar!
Nada!
Tenho o telefone carregado de chamadas perdidas, todas das tuas amigas, porque as minhas nunca souberam de ti.
Atiro também o Blackberry para longe de mim. [Agora? Havia Blackberry?]
Quero ficar ali no quente do areal, como quente estive sempre no teu corpo.
Eu amor, amei-te mais do que devia.
Sempre soube que ia acabar mal.
Luto.
Nojo.
Sobrevivo, corro desengonçada para o mar.
No caminho ainda tiro as calças.
E fico ali no ondular a rebolar.
Para cima e para baixo.
Estou banhada nas minhas lágrimas, com as do mar, entre a areia, lixada, gelada.
Tenho medo!
Fiquei sem lugar.
Choro, vou em direcção ao mar revolto, mergulho fundo, deixo-me enrolar nas ondas, ando perdida naquela distracção, vou limpando as feridas, luto por respirar, às vezes engulo água.
Fico naquele perigoso jogo, como se fosse até à fronteira entre a vida e a morte e..... ainda te pudesse ver, dizer adeus, ver esse teu sorriso enorme.
Mas não, estou aqui a escrever para um leitor maldito, para não te faltar ao prometido.
Tu que me deste tudo, discutimos tanto, falámos tanto na minha sexualidade, tu nunca te importaste com isso. Nem ligavas.
Eu a perguntar-te se era lésbica, e tu? Meu amor tu dizias com toda a certeza:
-         Claro que não!
E não era, ou não importa esse ser ou não ser, importava que te amava. Assim para alem do género. [Bom.]
O mar acalmou, o sol abrasou a minha pele. Tu morta.
Eu molhada.
O dia escuro.
Cruel destino.
Fui adiando a vida, como se pudesse adiar também a morte.
Estou tão sozinha, pequenina. Pudesses nascer outra vez e...eu ia até à Índia reunir-me contigo na religião Hindu.
Fazia dos volumes do Blake uma escada para te ir buscar ao oculto, iria com Milton em busca do Paraíso Perdido, para neste verso branco, em prosa, poder elogiar-te sem rima, nem talento. Um conto literário? Na era da Globalização?
Eu aqui no dropping do name, a mandar-te como mercadoria para a selva literária.
Como é que isto tudo foi foi tudo isto possível? Houvesse justiça no mundo e teria levado todos os doentes terminais ???, deixava-te aqui, comigo, num lugar que tinha para ti.
Adiei tanto, não foi?
Olho seminua o céu, consigo ler mensagens divinas, como códigos de barras vão-se alinhando as sombras. No crepuscular começo a gritar.
Chamo aos berros por Deus e pela sua força.
-         Deus, Deus, Ó meu Deus!!!!!!
Apareço eu, o narrador outra vez, oculto-me entre estes ciprestes de humanidade, vou espreitar no outro site, já só ficou o soalho manchado.
Levaram o corpo inerte para a medicina legal.
Avisaram a família, os amigos começam a saber a notícia, vão-se juntando confortando-se uns aos outros, fazem a página do adeus no Facebook, com os comentários a atingir números astronómicos.
Joana era uma pessoa mais que querida. Saudável. Equilibrada.
Pergunto ao autor se é necessário descrever assim a personagem, uma personagem que criou já morta.
Raios partam estes autores egoístas, convencidos que dominam a originalidade.
Querem ser originais. Fiquem quietos. Apagados do mundo. Sentados no seu lugar.
Não vou descrever as razões teóricas que fundamentam o autor, o Heidegger, sempre o Heidegger, como se não houvesse o Husserl, eu narrador alternativo, passo o recibo verde e engulo em seco.
Cabe dar, informar, colocar na forma e não questionar o contido.
Joana tomou a bica na Brasileira, tirou uma fotografias na baixa, viu uma varanda com uma vista para um pormenor de uma colcha, bordada, num prédio estendida.
A curiosidade não a deteve.
Tocou à campainha. Subiu as escadas.
À porta do apartamento, explicou lá para dentro, que queria ir tirar uma fotografia à varanda.
O homem, jovem apressado e com simpatia pela arte, abriu-lhe a porta,  deixou-a entrar.
Levou-a até à varanda e deixou-a sozinha a tirar as fotografias.
Este homem na pressa de ir para um reunião correu para o quarto para trocar a roupa do ginásio por um fato e gravata.
Neste, preciso, momento, entra a mulher, ainda à porta de casa vê o marido sem roupa no quarto e na varanda, uma mulher. Joana!
Corre para a gaveta onde guardava a calibre 22 e quando Joana entra com a câmara na mão, a mulher desvairada aponta e dispara um tiro certeiro, mesmo no meio do crânio da Joana.
O corpo caiu como um estrondo no chão.
O narrador retira-se com a brutalidade de um cangalheiro.

-         Meu Deus! Explica-me, será que a Joana se matou?
Ninguém lhe poderia querer mal.
Resta-me a dúvida para sempre. Nem quero saber. Eu sei lá.
Vomito.

Corro para casa e sento-me ao computador.
Desligo-me da rede, não quero mais saber dos status, nem das culpas e desculpas dos jornais e das revistas que já têm pouco de cor de rosa.
Sinto da rua, o cheiro a enxofre, procuro na minha tabela periódica onde se situará o dito, dava-me agora um jeitão estar na net, sem esforço, pedir à wiki   informações a todo o gás.
Assim, respiro gaseada uma incógnita, em cada lufada de ar, sinto os pulmões a inchar, os alvéolos em danças ganzadas.....com a pleura relaxada.
Saudades do outro tempo, de Veneza no Carnaval, do Montecarlo no Verão, de NY em qualquer estação.
Olho a luz intensa do sol, e na cegueira, Lisboeta, com a sua cadência, adivinhando o prefixo, dos próximos meses.....
Se fosse uma letra eu? queria ser o a, vogal, com voz em quase todas as palavras, do amor à inteligência, ser o princípio de uma e o fim da outra!
Ai que quem me dera ser um fado, gostava de sair forte da boca do Camané, percorrer aquele caminho veloz entre o ventre, subindo a traqueia e sair, expelida com o gemido saudoso do destino da boca do fadista, inundar a sala.....e depois ir entrando em tímpanos, provocando sensações, faiscazinhas em terminais nervosos.
Enfiada neste corpo, com limites de movimento, em voo de ficcionais devaneios, fantasias sem erotismo, desço fundo cada um dos degraus, para chegar à cave da pornografia, encontro os tesouros do prazer....eu sou livre, sem ligação, apenas no ritmo acelerado da minha passada.
   Paro ao sol sentido, o meu, prolapso da válvula mitral, aquele click, único, mecânico, um escape tácito para a correria desvairada, sanguinária que faz jogging pelo mapa, sistema venoso.....pudesse eu deixar este, e ocupar outro corpo, habituar-me à juventude outra vez, despir a minha pele de carneiro com os olhos de quem está mal morto.....e envergar o lobo mau, auuuuuu
Uivar à Lua a noite inteira, amansando o meu instinto fatal!
Comer-te toda, rasgar-te camada a camada, como quem arranca as folhas de um livro, roer-te até ao osso numa só mordida.
Tu Joana, estás morta. Eu, viva!

Tu Joana, estás viva! Eu, morta.

Revisto 2: Regina Gaspar Amor Adiado

Veredicto: Uma bela história com um belo final. Todo o 1º parágrafo é desnecessário ou pode ser encurtado ao conflito canja/maquilhagem.

Frente ao grande espelho da entrada, Helena dava os últimos retoques na maquilhagem, antes de sair. Mais um pouco de bâton cor de rosa, sempre bâton cor de rosa. Mais uma passagem de rímel. Mais um ajeitar de cabelos.  Mais uma aspersão de perfume francês.  Abriu a mão direita em frente ao nariz, fazendo um trejeito de contrariedade. Cheiro de comida. Canja. A canja de que a mãe tanto gostava e que deixara há pouco em cima da mesa da cozinha dela. Dirigiu-se com ar aborrecido à casa de banho, onde lavou demoradamente as mãos, enquanto observava distraidamente as unhas bem pintadas. Unha francesa, não muito longa. Voltou à entrada, pegou num saco de pele genuina castanha, que colocou ao ombro, e saiu.
Já na rua, Helena recebeu com agrado a aragem fresca daquela manhã de abril. Correu para apanhar o comboio que a levava diariamente até Lisboa. Mal tinha pisado a plataforma, ouviu anunciar o comboio que chegava. Entrou, sentou-se e olhou através da janela. Apesar dos quarenta e cinco anos feitos em fevereiro último, Helena continuava a ser uma bela mulher. Entre os colegas de trabalho era conhecida como a Sandra Bullock do sítio. [Boa aplicação da técnica Elmore Leonard. J] Helena sorria e agradecia intimamente o elogio.
Estava cansada e ainda não eram 8 horas da manhã. Antes de sair, como sempre, desde há cinco anos, Helena preparara o almoço para a mãe, octogenária e vítima de demência senil. Separara os medicamentos matinais, confirmara que a chave estava no lugar, para que a empregada entrasse mais tarde. Helena e a mãe viviam em apartamentos contíguos. Em toda esta azáfama matinal, mãe e filha não trocavam uma palavra. Helena entrava, seguia a sua rotina diária e saía, sempre em silêncio. Depois, só depois ia à sua vida.
Naquele dia [vírgula a fazer par com a próxima ou corta] como acontecia frequentemente, enquanto o comboio devorava os quilómetros que a separavam da capital, Helena deixava ou-se invadir pelas memórias do passado. O pai abandonara a mãe, quando ela tinha Helena dois anos. A mãe tornou-se (ou já seria?) uma mulher dura, sem sorrisos ou carinhos. O único método de educação que conhecia e que Helena sentira na pele era baseado na austeridade e na punição física e psicológica. Por vezes, Helena parecia sentir ainda no corpo as vergastadas e na alma a ameaça: “Ponho-te os pés na barriga, que te rebento.” Por vezes, a mãe dizia: “Se não fosses tu, minha pindérica, eu ainda estava com o teu pai, ou então ia ter com ele à França. Agora, assim, com este emplastro... Desgraçaste-me a vida”.
Helena crescera sem verdadeiro materno ?? ou este estava tão mascarado de violência que o sentimento que nutria pela mãe era um misto de medo e ódio. Já casada, a mãe revelara-se um verdadeiro obstáculo, querendo controlar a vida da filha e do genro. Desde as pequenas coisas até aos assuntos mais importantes. O jovem casal maldizia o dia em que, cedendo ao choro histérico de dona Custódia, concordara em que ela ficasse a viver lá em casa. [Bom] Afinal, era uma mulher só, sem marido e Helena era a sua única filha. Um dia, o marido de Helena obrigou-a a decidir – ficar com a mãe ou segui-lo. Foi então que Helena tomou a decisão de procurar dois apartamentos, um para o casal e os dois filhos entretanto nascidos, e outro para a mãe de Helena. Assim permaneciam até ao presente.
Por vingança, dona Custódia dirigiu-se ao banco e retirou todo o dinheiro da conta conjunta que tinha com a filha todo o dinheiro que possuía. À porta da filha de Helena apareceu, durante longo tempo, uma palavra escrita com a giz: “Cobra”. Helena apagava hoje e amanhã no dia seguinte estavaestava de novo este o cartão de boas-vindas. Seguiam-se discussões violentas entre ambas. Com o tempo, Helena deixou de entrar em casa da mãe até que, um dia, esta ficou doente. Operada de urgência a um cancro no pâncreas, sobreviveu miraculosamente e recebeu de Helena todo o apoio. Visitas diárias ao hospital, acompanhamento a tratamentos. Tudo. E dona Custódia parecia ter ficado mais macia face à eminência da morte; mas, uma vez recuperada, e porque passara a pernoitar em casa da filha, voltou a causar a discórdia, querendo toda a atenção para si e interferindo nas decisões do casal. Na sua vilania chegou ao cúmulo de dizer ao genro que a filha o andava a enganar com outro homem e que o melhor que ele fazia era deixá-la. [Bom]
Um dia, não suportando mais os desaforos da mãe, Helena, disparou:
— A mãe já está melhor. Já consegue fazer as suas coisas. Está na hora de voltar para sua casa.
— Grande puta. [A mãe diz assim?] Andei eu a criar-te para agora me pores na rua. Não vales nada. És mesmo como o teu pai. Não sei porque não te levou ele. Estão bem um para o outro. Ele só gostava de putas e tu és uma. – ripostou a velha, enfurecida. [Sabemos que foi ela.]
— Pare de me ofender! Eu já não tenho medo das suas ameaças. Ou ainda me quer pôr os pés na barriga? – gritou Helena, um pouco alterada. [Princípio de economia]
— Não digas mais que és minha filha. E escusas de ir lá a casa. Posso morrer lá como um cão, mas não te quero lá. E tudo o que tenho não te irá parar às mãos.
Nesse dia mesmo mesmo dia, dona Custódia passou a viver na sua casa. Sozinha, outra vez. Com a passagem do tempo, a sua condição psíquica deteriorou-se. Demência senil.  Já não sabia cozinhar, deixava o fogão ligado até o tacho arder, não tomava banho, não mudava de roupa. Disse o psiquiatra a Helena: dantes as pessoas não viviam tanto tempo, por isso estas doenças não existiam. E o pior é que, com o passar do tempo, tudo o que há de pior nestas pessoas acentua-se.
 Helena engoliu as mágoas e a revolta, passando a deixar a comida para a mãe, feita antes de sair para o emprego, e a dar-lhe banho com regularidade, vigiando-lhe a higiene pessoal. Contratara, também, uma empregada para cuidar dela na sua ausência. [Vírgulas cortam ritmo]
Helena vivia, desde então, dividida entre a piedade e a revolta. Não se falavam. Não se tocavam. Havia dias em que a velha parecia não a reconhecer e a sua condição física degradava-se.

Ô

O comboio chegava a Almada e ficava mais vazio, pois, àquela hora, transportava muitos estudantes universitários que saiam ali. Helena pôde finalmente esticar as pernas. O jovem que viajara na sua frente era um dos que saíra. [Está implícito…] Voltou a olhar através da janela. À sua direita, estendia-se um espetacular manto azul, o Tejo, entrevisto por entre os pilares da Ponte 25 de Abril. Helena mergulhou, de novo, nos seus pensamentos. A beleza do lugar, aquele rio tão inspirador, visto assim de tão alto, ajudaram-na a tomar uma decisão: naquele dia, quando regressasse a casa, iria ter uma conversa com a mãe. Queria pedir-lhe desculpa por algumas palavras mais amargas que lhe dirigira, ao mesmo tempo que queria algumas explicações. Helena desejava uma reconciliação com a mãe e com o passado.
O dia custou a passar. De regresso a casa, Helena ensaiava as palavras que diria à mãe:
— Mãe, vamos parar com esta infantilidade. A mãe agiu comigo, tanto em criança como em adulta, de uma forma que condeno, mas é minha mãe. Nós podemos mudar as coisas...
Foi com estes pensamentos que Helena abriu a porta do apartamento da mãe e chamou:
— Mãe?

Apenas se ouviu o silêncio.  

Revisto 1: Gonçalo Dias: Caso do Acaso

Veredicto: a história tem graça, o grande problema deste texto são as redundâncias e os ecos. Ava/ava, tentou/tentava, mulher de João/marido, etc. Não gosto do título. Até mesmo «A traição» seria mais forte. 


João não conseguia levantá-la. [o quê?] Tentou de tudo, mas naquela manhã não dava. Há anos que tentava gerir o seu problema, mas a condição em que mergulhara, agora que se encontrava nas águas profundas dos quarenta, tendia apenas a agravar-se. As sessões de acupunctura não desbloquearam nada. Os comprimidos – de origem natural ou não – apenas se traduziam num interminável enterro de dinheiro. As massagens não tinham um final feliz. [Massagens para excitar? Não condiz com a personagem.]

Eu começava só aqui:
Naquela manhã, a mochila estava demasiado pesada, e as suas costas já não tinham a robustez e invulnerabilidade próprias da juventude.
João tinha de levar uma quantidade generosa de livros e documentos até ao Centro de História de Além-Mar, onde estava a desenvolver um projecto de investigação.
Estás Continuas de volta lá daquele capitão não-sei-quantos que passou por não-sei-onde?”, perguntou Anabela, mulher de João, ao deparar-se com as sucessivas tentativas  do marido em pôr a mochila às costas.
João, encontrando-se numa posição gloriosamente gímnica, qual ginasta soviético emperrado como um Tupolev, respondeu-lhe com esforço.
“Sim, encontrámos uma carta na Torre do Tombo que demonstra que um conhecido do Afonso de Freixo se encontrou-se consigo em Malaca pelo menos uma vez!”
“Interessante”, respondeu secamente Anabela enquanto decidia qual echarpe ficava melhor com o seu tom de pele. [O gesto dispensa o advérbio]
“Sim, ou me engano muito, ou estamos perante um verdadeiro achado! Algo que poderá lançar alguma luz sobre uma figura que poderá ter sido determinante no processo de expansão quinhentista”, afirmou João, claramente entusiasmado.
“Ai sim?” , expressou Anabela, decidindo-se decidiu-se pelo echarpe lilás.
“Sem dúvida”, reiterou João, ajustando a distribuição do peso da mochila.
Esta foi a deixa para João se despedir da sua esposa, e ir do Saldanha, onde residia, até à Avenida de Berna, onde trabalhava. [Bom] Todos os dias apanhava o Metro, saindo no Campo Pequeno, e percorria vagarosamente aquele trajecto, como se o peso da sua mochila fosse o peso do mundo. Ao longe parecia uma pobre tartaruga das Seychelles, a tentar fugir, por entre as gotas de chuva, à sua extinção. [Uma estação?! Mas a imagem é gira.]
Ao sair da estação, um senhor andrajosamente vestido distribuiu-lhe um cartão. João aceitou-o, por cortesia, e colocou-o no bolso.
Tenho de deitar esta porcaria fora quando virar a esquina”, pensou.
Mas não o fez. Esqueceu-se. Só quando regressava a casa, novamente de transportes públicos, é que notou que ainda estava em posse daquele objecto. [Simplifique] Como estava aborrecido – como a maioria das pessoas que anda no Metro de Lisboa costuma estar – decidiu lê-lo.
Grande Mestre Mamadu Embaló…leu para si, “isto começa bem”, pensou.Sua mulher anda a trair você. Contacte nós para resolver seu problema”.
João sabia, obviamente, que aqueles “grandes mestres, videntes, médiuns, feiticeiros e afins” faziam mirabolantes promessas que, grosso modo, se resumiam resumidas a ensaios de comicidade em formato 12x7, mas a sua faceta de inquiridor foi despertada por tão lacónica mensagem.
“Anabela? Já chegaste?”  , perguntou João, fechando cuidadosamente a porta de casa.
Silêncio. Ao longe, João apenas ouvia o irritante zumbido que a arca congeladora caprichosamente fazia de vez em quando. Já no quarto, trocou os seus mocassins por uns chinelos, e pôs-se confortável. Ao caminhar em direcção à casa de banho, porém, lembrou-se do que lera.
Impossível… deixa-te de coisas”, ordenou a si mesmo.
Mas aquele pensamento não o abandonava. Era como o barulho da sua arca [de quem mais seria a arca?] : não matava mas moía. Decidiu, então, tomar medidas para apaziguar a mente. Procurou por indícios de uma traição, de qualquer elemento que o pudesse induzir a levar a sério uma narrativa tão descabida. Nada na mesa-de-cabeceira. Nada na cómoda. Abriu o guarda-fatos.
“Oh, meu Deus!”, exclamou, completamente surpreendido pelo que estava a observar. “Como é que é possível ela ter tantas malas? Mas para que é que ela quer ela isto tudo?!”, reflectiu, indignado.
Ao terminar de arrumá-las no sítio original, uma por uma, suspirando de alívio – e simultaneamente frustração -, ouviu a chave rodar no canhão da porta.
“Porra!”
Fechou a porta do guarda-fatos apressadamente, e sentou-se na cama, arrumando o relógio de pulso e os anéis que trazia sempre consigo na gaveta da mesa-de-cabeceira. [Se fosse pertinente, não é, tivesse dado antes o raio da informação…]
“Olá querida! Como correu o dia?”, questionou, procurando ou distrair Anabela – ou aborrecê-la de morte – com conversa de circunstância.
“Eh, bem”, retorquiu a sua mulher, claramente sem vontade de desenvolver esta resposta. “Vou tomar um duche. Precisas de ir à casa de banho?”
“Não, querida. Está à vontade,” assegurou o desconfortável marido, ainda corroído por ter vasculhado os pertences da sua esposa.
João ouviu a água correr. Suspirou novamente. Olhou em seu redor e viu-o. Mais um dos cismas de Anabela, ali, à sua mercê. O seu iPhone 5, ainda a cheirar a novo, certamente seria a derradeira prova de que ela não o estaria a trair. Ou então, quiçá, o testemunho de uma traição que duraria sabia lá ele há quanto tempo.
Isto é errado… é ir longe demais… é o seu telemóvel… são as suas mensagens pessoais, a sua conta de correio electrónico, é…”, e parou. Sabia o que tinha de fazer para não ficar a matutar o resto do dia.
Novamente nada. Completamente limpo. Nada de e-mails pessoais suspeitos, ou de mensagens íntimas com um colega de trabalho. Nada de nada.
Contudo, João intuiu que a ausência de qualquer prova não significava que Anabela se encontrava absolvida do crime que estava a congeminar na sua cabeça. Pelo contrário, não ter encontrado o que quer que seja fosse apenas o deixou mais inquieto.
“É impossível… está tudo demasiado… perfeito”, concluiu.
Procurou um jornal recente, que ainda não tivesse posto na reciclagem, e folheou-o freneticamente até chegar à secção de classificados.
«Diamantino Neto. Detective privado, com 20 anos de experiência. Não deixe para amanhã o que pode saber hoje». “É isto!” , soltou sem pensar.
A água do duche parou. João ouvia a mulher a arrumar o champô e o gel de banho. Tinha pouco tempo. Em passo apressado, dirigiu-se até à sala, e discou o número o mais depressa que pôde. Combinou encontrar-se com o detective no dia seguinte, para lhe explicar o que pretendia. Parágrafo: E assim fez. Partilhou as suas suspeitas e só não lhe contou que estas começaram de maneira aparentemente aleatória e sem razão aparente.
Tinha de esperar. Oito dias foi o prazo que o detective deu. Após esse período, encontrar-se-iam e ser-lhe-ia comunicado o que o profissional descobrira. Foi a semana mais longa que João passara. Tentava falar normalmente com a mulher, mas tornava-se difícil disfarçar as suas suspeitas. Mais difícil ainda seria explicar-lhe o porquê delas existirem em primeiro lugar. Até que chegou o dia.
“Tenho boas notícias, Doutor”, avançou Diamantino, sorridente.
João não respondeu. Engoliu em seco e fez sinal com a cabeça para Diamantino continuar.
“Bem, a verdade é que, das duas uma, ou a sua mulher não tem um caso, ou devia dar um curso de como o esconder… porque digo-lhe, não encontrei absolutamente nada que apontasse nessa direcção”, concluiu.
João suspirou de alívio.
“Isso é bom, não é?”, interrogou.
“É, diria que não tem nada com que se preocupar”, retorquiu afoitamente o detective.
Nessa tarde, quando João chegou a casa, ainda vazia, pôde voltar a ser um simples e plácido investigador de História, já que a sua história tinha pouco mais a dar. Ao deitar-se, nessa noite, desabafou com a sua esposa, e semeou um pouco de honestidade.
“Sabes, acreditas que julguei que estavas a ter um caso? Eu sei, eu sei… absurdo… devia ter-te perguntado logo”, argumentou João, algo atrapalhado, sem saber como desenvolver o assunto.
“Nem me apercebi… mas, tás parvo?”, contestou impacientemente Anabela.
“Então… não tens um amante?” perguntou João, receosamente.
“Não, João Manuel, não tenho”, negou Anabela, revirando os olhos.
João deu as boas noites à esposa, deitou-se de lado e adormeceu tranquilo pela primeira vez em mais de uma semana. Anabela imitou-o, excepto na parte do adormecer. Quando ouviu os primeiros roncos do marido, alcançou o telemóvel cuidadosamente, e enviou uma mensagem de texto, apagando-a de seguida.
«Dorme bem, Diamantino. Mal posso esperar por 5ª. Bjs».