sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Gonçalo Dias - «O assassinato de Policarpo


Estava destinado, há algum tempo, que o dia em que o visse pela primeira vez fosse também o último que testemunharia o seu derradeiro suspiro. Tomara eu poder dizer que Policarpo partiu deste mundo de forma plácida e serena, mas isso seria um imerecido eufemismo para as acções trágicas desse dia. Policarpo merece mais. Policarpo merece melhor. Policarpo merece que a verdade seja proferida sem qualquer inibição.

O local onde nos cruzámos foi numa pequena aldeia, em pleno Ribatejo. Não o distingui à primeira, pois estava com os seus amigos. A ignorância só de mim se despojou quando me anunciaram entusiasticamente:

“Olha, é aquele.”

Pareceu-me, desde logo, bastante simpático. Lembro-me do seu ar saudável, bonacheirão, perdido pacatamente nos seus afazeres. Queria ter ido cumprimenta-lo, dar-lhe uma palavra de apreço, mas a tenra idade não me permitia aventurar sem que a minha progenitora me lançasse um olhar de reprovação.

“Está quase”, disse ela, em jeito de presságio.

Vi meia-dúzia de animais aproximarem-se de Policarpo. Grunhiam, vociferavam, escarneciam com uma malícia quase palpável. O ar ficou pesado.

“Isto não é lugar para ti”, prosseguiu a progenitora, manifestando genuína preocupação.

Deu-me a mão, e levou-me dali. Sentámo-nos numas cadeiras brancas de plástico, presentes no pátio, contemplando as restantes habitações da aldeia, respirando aquele ar virgem e fingindo que não estávamos a pensar no mesmo.

Bastaram segundos para qualquer esforço ter-se revelado infrutífero. No meio da massa sonora indiferenciada, distinguimos com clareza Policarpo soltar um pesaroso grito, ao que se seguiram pequenos carpidos e lamentos. A aflição que transferiu para as imediações é algo que ainda hoje me causa um nó no estômago. Sinto isso com toda a nitidez, mas não me atrevo dizer que sinto – ou sequer compreendo – a sua dor.

Outro grito pungente!

“Mãe, quero sair daqui”, sussurrei à progenitora.

“Eu sei, querido”, retorquiu, beijando-me na testa.

Os animais berravam com um cruel entusiasmo. Nada parecia ter capacidade de piorar aquele momento até que Policarpo libertou um terceiro grito, seguido de um breve e inenarrável silêncio. Não mais ouvi a sua voz. Por contraste, os animais continuavam agitados, embora um pouco menos ruidosos.

“Já passou”, disse-me a mãe, “o pior já passou”, reforçou.

Apesar da garantia dada pela minha mãe, o que se seguiu originou algo que frequentemente ainda me invade os sentidos. Um nauseabundo cheiro a queimado. Pêlo queimado. Posteriormente, um animal de maçarico em punho passou por nós, sorrindo para mim. O que me apeteceu fazer na altura não se compara ao que me apeteceria fazer hoje se enxergasse novamente aquele esgar de jubilação. Era demasiado imaculado para reagir ao que tinha acabado de acontecer. Simplesmente não o compreendia.

O tempo passou por mim sem que me apercebesse, e decidiu presentear-me com uma pedrada no charco da minha ignorância.

“Aqui estão elas”, bramiu um animal.

À minha frente estava o Policarpo, reduzido a febras. Pedaços de uma vida ceifada por bestas selvagens. Só uma aberração desprovida de emoções encontra regozijo no sofrimento de um semelhante, penso agora. Para se ser porco, neste mundo, e sobreviver, o segredo é usar gravata ou cinta de ligas. O problema do Policarpo foi encarar este mundo conforme a ele chegou.

Sem comentários:

Enviar um comentário