Estava
destinado, há algum tempo, que o dia em que o visse pela primeira vez fosse
também o último que testemunharia o seu derradeiro suspiro. Tomara eu poder
dizer que Policarpo partiu deste mundo de forma plácida e serena, mas isso
seria um imerecido eufemismo para as acções trágicas desse dia. Policarpo
merece mais. Policarpo merece melhor. Policarpo merece que a verdade seja
proferida sem qualquer inibição.
O local
onde nos cruzámos foi numa pequena aldeia, em pleno Ribatejo. Não o distingui à
primeira, pois estava com os seus amigos. A ignorância só de mim se despojou quando
me anunciaram entusiasticamente:
“Olha, é
aquele.”
Pareceu-me,
desde logo, bastante simpático. Lembro-me do seu ar saudável, bonacheirão,
perdido pacatamente nos seus afazeres. Queria ter ido cumprimenta-lo, dar-lhe uma
palavra de apreço, mas a tenra idade não me permitia aventurar sem que a minha
progenitora me lançasse um olhar de reprovação.
“Está
quase”, disse ela, em jeito de presságio.
Vi
meia-dúzia de animais aproximarem-se de Policarpo. Grunhiam, vociferavam,
escarneciam com uma malícia quase palpável. O ar ficou pesado.
“Isto não é
lugar para ti”, prosseguiu a progenitora, manifestando genuína preocupação.
Deu-me a
mão, e levou-me dali. Sentámo-nos numas cadeiras brancas de plástico, presentes
no pátio, contemplando as restantes habitações da aldeia, respirando aquele ar
virgem e fingindo que não estávamos a pensar no mesmo.
Bastaram
segundos para qualquer esforço ter-se revelado infrutífero. No meio da massa
sonora indiferenciada, distinguimos com clareza Policarpo soltar um pesaroso
grito, ao que se seguiram pequenos carpidos e lamentos. A aflição que
transferiu para as imediações é algo que ainda hoje me causa um nó no estômago.
Sinto isso com toda a nitidez, mas não me atrevo dizer que sinto – ou sequer
compreendo – a sua dor.
Outro grito
pungente!
“Mãe, quero
sair daqui”, sussurrei à progenitora.
“Eu sei,
querido”, retorquiu, beijando-me na testa.
Os animais
berravam com um cruel entusiasmo. Nada parecia ter capacidade de piorar aquele
momento até que Policarpo libertou um terceiro grito, seguido de um breve e
inenarrável silêncio. Não mais ouvi a sua voz. Por contraste, os animais
continuavam agitados, embora um pouco menos ruidosos.
“Já
passou”, disse-me a mãe, “o pior já passou”, reforçou.
Apesar da
garantia dada pela minha mãe, o que se seguiu originou algo que frequentemente
ainda me invade os sentidos. Um nauseabundo cheiro a queimado. Pêlo queimado.
Posteriormente, um animal de maçarico em punho passou por nós, sorrindo para
mim. O que me apeteceu fazer na altura não se compara ao que me apeteceria
fazer hoje se enxergasse novamente aquele esgar de jubilação. Era demasiado
imaculado para reagir ao que tinha acabado de acontecer. Simplesmente não o
compreendia.
O tempo
passou por mim sem que me apercebesse, e decidiu presentear-me com uma pedrada
no charco da minha ignorância.
“Aqui estão
elas”, bramiu um animal.
À minha
frente estava o Policarpo, reduzido a febras. Pedaços de uma vida ceifada por
bestas selvagens. Só uma aberração desprovida de emoções encontra regozijo no
sofrimento de um semelhante, penso agora. Para se ser porco, neste mundo, e
sobreviver, o segredo é usar gravata ou cinta de ligas. O problema do Policarpo
foi encarar este mundo conforme a ele chegou.
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