Veredicto: a história tem graça, o grande problema deste texto são as redundâncias
e os ecos. Ava/ava, tentou/tentava, mulher de João/marido, etc. Não gosto do título. Até mesmo «A traição» seria mais forte.
João não conseguia levantá-la. [o quê?]
Tentou de tudo, mas naquela manhã
não dava. Há anos que tentava
gerir o seu problema, mas a condição em que mergulhara, agora que se encontrava nas águas profundas dos
quarenta, tendia apenas a agravar-se. As sessões de acupunctura não
desbloquearam nada. Os comprimidos – de origem natural ou não – apenas se
traduziam num interminável enterro de dinheiro. As massagens não tinham um
final feliz. [Massagens para excitar? Não condiz
com a personagem.]
Eu começava só aqui:
Naquela manhã, a mochila estava demasiado pesada, e as suas costas já
não tinham a robustez e invulnerabilidade próprias da juventude.
João tinha de levar uma quantidade generosa de livros e documentos até
ao Centro de História de Além-Mar, onde estava a desenvolver um projecto de
investigação.
“Estás Continuas de volta lá daquele capitão não-sei-quantos que passou
por não-sei-onde?”, perguntou Anabela, mulher de João, ao deparar-se com
as sucessivas tentativas do marido em pôr
a mochila às costas.
João, encontrando-se numa posição gloriosamente gímnica, qual ginasta
soviético emperrado como um Tupolev, respondeu-lhe com esforço.
“Sim, encontrámos uma carta na Torre do
Tombo que demonstra que um conhecido do Afonso de Freixo se encontrou-se consigo em
Malaca pelo menos uma vez!”
“Interessante”, respondeu secamente Anabela enquanto decidia
qual echarpe ficava melhor com o seu tom de pele. [O
gesto dispensa o advérbio]
“Sim, ou me engano muito, ou estamos perante um verdadeiro achado! Algo que poderá lançar alguma
luz sobre uma figura que poderá ter sido determinante no processo de expansão
quinhentista”, afirmou João, claramente entusiasmado.
“Ai sim?” , expressou Anabela, decidindo-se decidiu-se pelo echarpe lilás.
“Sem dúvida”, reiterou João, ajustando a distribuição do peso da
mochila.
Esta foi a deixa para João se despedir da sua esposa, e ir do Saldanha, onde residia, até à Avenida de Berna, onde
trabalhava. [Bom] Todos os dias apanhava
o Metro, saindo no Campo Pequeno, e percorria vagarosamente aquele trajecto,
como se o peso da sua mochila fosse o peso do mundo. Ao longe parecia uma pobre
tartaruga das Seychelles, a tentar fugir, por entre as gotas de chuva, à sua
extinção. [Uma estação?! Mas a imagem é gira.]
Ao sair da estação, um senhor andrajosamente vestido distribuiu-lhe um
cartão. João aceitou-o, por cortesia, e colocou-o no bolso.
“Tenho de deitar esta porcaria
fora quando virar a esquina”, pensou.
Mas não o fez. Esqueceu-se. Só quando regressava a casa, novamente de
transportes públicos, é que notou que ainda estava
em posse daquele objecto. [Simplifique]
Como estava aborrecido – como a maioria das pessoas que anda no
Metro de Lisboa costuma estar – decidiu lê-lo.
“Grande Mestre Mamadu Embaló…”
leu para si, “isto começa bem”, pensou. “Sua mulher anda a trair você. Contacte nós
para resolver seu problema”.
João sabia, obviamente, que
aqueles “grandes mestres, videntes, médiuns, feiticeiros e afins” faziam mirabolantes
promessas que, grosso modo, se
resumiam resumidas a ensaios de
comicidade em formato 12x7, mas a sua faceta de inquiridor foi despertada por
tão lacónica mensagem.
“Anabela? Já chegaste?” , perguntou João, fechando cuidadosamente
a porta de casa.
Silêncio. Ao longe, João apenas ouvia o irritante zumbido que a arca
congeladora caprichosamente fazia de vez em quando. Já no quarto, trocou os
seus mocassins por uns chinelos, e pôs-se confortável. Ao caminhar em direcção
à casa de banho, porém, lembrou-se do que lera.
“Impossível… deixa-te de coisas…”, ordenou a si mesmo.
Mas aquele pensamento não o abandonava. Era como o barulho da sua arca [de quem mais seria a arca?] : não matava mas moía.
Decidiu, então, tomar medidas para apaziguar a mente. Procurou por indícios de uma traição, de qualquer elemento que o pudesse induzir a levar
a sério uma narrativa tão descabida. Nada na mesa-de-cabeceira. Nada na cómoda.
Abriu o guarda-fatos.
“Oh, meu Deus!”, exclamou, completamente surpreendido pelo que estava a
observar. “Como é que é possível ela ter
tantas malas? Mas para que é que ela quer ela isto tudo?!”, reflectiu, indignado.
Ao terminar de arrumá-las no sítio original, uma por uma, suspirando de
alívio – e simultaneamente frustração -, ouviu a chave rodar no canhão da
porta.
“Porra!”
Fechou a porta do guarda-fatos apressadamente, e sentou-se na cama, arrumando o relógio de pulso e os anéis que trazia sempre
consigo na gaveta da mesa-de-cabeceira. [Se
fosse pertinente, não é, tivesse dado antes o raio da informação…]
“Olá querida! Como correu o dia?”, questionou,
procurando ou
distrair Anabela – ou aborrecê-la de morte – com conversa de circunstância.
“Eh, bem”, retorquiu a sua mulher, claramente sem vontade de
desenvolver esta resposta. “Vou tomar um duche. Precisas de ir à casa de
banho?”
“Não, querida. Está à vontade,” assegurou o desconfortável marido,
ainda corroído por ter vasculhado os pertences da sua esposa.
João ouviu a água correr. Suspirou novamente. Olhou em seu redor e
viu-o. Mais um dos cismas de Anabela, ali, à sua mercê. O seu iPhone 5, ainda a
cheirar a novo, certamente seria a derradeira prova de que ela não o estaria a
trair. Ou então, quiçá, o testemunho de uma traição que duraria sabia lá ele há
quanto tempo.
“Isto é errado… é ir longe
demais… é o seu telemóvel… são as suas mensagens pessoais, a sua conta de
correio electrónico, é…”, e parou. Sabia o que tinha de fazer para não
ficar a matutar o resto do dia.
Novamente nada. Completamente limpo. Nada de e-mails pessoais suspeitos, ou de mensagens íntimas com um colega
de trabalho. Nada de nada.
Contudo, João intuiu que a ausência de qualquer prova não significava
que Anabela se encontrava absolvida do crime que estava
a congeminar na sua cabeça. Pelo contrário, não ter encontrado o que
quer que seja fosse
apenas o deixou mais inquieto.
“É impossível… está tudo demasiado… perfeito”, concluiu.
Procurou um jornal recente, que ainda não tivesse posto na reciclagem,
e folheou-o freneticamente até chegar à secção de classificados.
«Diamantino Neto. Detective privado, com 20 anos de experiência. Não
deixe para amanhã o que pode saber hoje». “É isto!” ,
soltou sem pensar.
A água do duche parou. João ouvia a mulher a arrumar o champô e o gel
de banho. Tinha pouco tempo. Em passo apressado, dirigiu-se até à sala, e
discou o número o mais depressa que pôde. Combinou encontrar-se com o detective
no dia seguinte, para lhe explicar o que pretendia. Parágrafo:
E assim fez. Partilhou as suas suspeitas e só não lhe contou que estas
começaram de maneira aparentemente aleatória e sem razão aparente.
Tinha de esperar. Oito dias foi o prazo que o detective deu. Após esse
período, encontrar-se-iam e ser-lhe-ia comunicado o que o profissional
descobrira. Foi a semana mais longa que João passara. Tentava falar normalmente
com a mulher, mas tornava-se difícil disfarçar as suas suspeitas. Mais difícil
ainda seria explicar-lhe o porquê delas existirem em primeiro lugar. Até que
chegou o dia.
“Tenho boas notícias, Doutor”, avançou Diamantino, sorridente.
João não respondeu. Engoliu em seco e fez sinal com a cabeça para
Diamantino continuar.
“Bem, a verdade é que, das duas uma, ou a sua mulher não tem um caso,
ou devia dar um curso de como o esconder… porque digo-lhe, não encontrei
absolutamente nada que apontasse nessa direcção”, concluiu.
João suspirou de alívio.
“Isso é bom, não é?”, interrogou.
“É, diria que não tem nada com que se preocupar”, retorquiu afoitamente
o detective.
Nessa tarde, quando João chegou a casa, ainda vazia, pôde voltar a ser
um simples e plácido investigador de História, já que a sua história tinha
pouco mais a dar. Ao deitar-se, nessa noite, desabafou com a sua esposa, e
semeou um pouco de honestidade.
“Sabes, acreditas que julguei que estavas a ter um caso? Eu sei, eu
sei… absurdo… devia ter-te perguntado logo”, argumentou João, algo atrapalhado,
sem saber como desenvolver o assunto.
“Nem me apercebi… mas, tás parvo?”, contestou impacientemente Anabela.
“Então… não tens um amante?” perguntou João, receosamente.
“Não, João Manuel, não tenho”, negou Anabela, revirando os olhos.
João deu as boas noites à esposa, deitou-se de lado e adormeceu
tranquilo pela primeira vez em mais de uma semana. Anabela imitou-o, excepto na
parte do adormecer. Quando ouviu os primeiros roncos do marido, alcançou o
telemóvel cuidadosamente, e enviou uma mensagem de texto, apagando-a de seguida.
«Dorme bem, Diamantino. Mal posso esperar por 5ª. Bjs».
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