quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Revisto 1: Gonçalo Dias: Caso do Acaso

Veredicto: a história tem graça, o grande problema deste texto são as redundâncias e os ecos. Ava/ava, tentou/tentava, mulher de João/marido, etc. Não gosto do título. Até mesmo «A traição» seria mais forte. 


João não conseguia levantá-la. [o quê?] Tentou de tudo, mas naquela manhã não dava. Há anos que tentava gerir o seu problema, mas a condição em que mergulhara, agora que se encontrava nas águas profundas dos quarenta, tendia apenas a agravar-se. As sessões de acupunctura não desbloquearam nada. Os comprimidos – de origem natural ou não – apenas se traduziam num interminável enterro de dinheiro. As massagens não tinham um final feliz. [Massagens para excitar? Não condiz com a personagem.]

Eu começava só aqui:
Naquela manhã, a mochila estava demasiado pesada, e as suas costas já não tinham a robustez e invulnerabilidade próprias da juventude.
João tinha de levar uma quantidade generosa de livros e documentos até ao Centro de História de Além-Mar, onde estava a desenvolver um projecto de investigação.
Estás Continuas de volta lá daquele capitão não-sei-quantos que passou por não-sei-onde?”, perguntou Anabela, mulher de João, ao deparar-se com as sucessivas tentativas  do marido em pôr a mochila às costas.
João, encontrando-se numa posição gloriosamente gímnica, qual ginasta soviético emperrado como um Tupolev, respondeu-lhe com esforço.
“Sim, encontrámos uma carta na Torre do Tombo que demonstra que um conhecido do Afonso de Freixo se encontrou-se consigo em Malaca pelo menos uma vez!”
“Interessante”, respondeu secamente Anabela enquanto decidia qual echarpe ficava melhor com o seu tom de pele. [O gesto dispensa o advérbio]
“Sim, ou me engano muito, ou estamos perante um verdadeiro achado! Algo que poderá lançar alguma luz sobre uma figura que poderá ter sido determinante no processo de expansão quinhentista”, afirmou João, claramente entusiasmado.
“Ai sim?” , expressou Anabela, decidindo-se decidiu-se pelo echarpe lilás.
“Sem dúvida”, reiterou João, ajustando a distribuição do peso da mochila.
Esta foi a deixa para João se despedir da sua esposa, e ir do Saldanha, onde residia, até à Avenida de Berna, onde trabalhava. [Bom] Todos os dias apanhava o Metro, saindo no Campo Pequeno, e percorria vagarosamente aquele trajecto, como se o peso da sua mochila fosse o peso do mundo. Ao longe parecia uma pobre tartaruga das Seychelles, a tentar fugir, por entre as gotas de chuva, à sua extinção. [Uma estação?! Mas a imagem é gira.]
Ao sair da estação, um senhor andrajosamente vestido distribuiu-lhe um cartão. João aceitou-o, por cortesia, e colocou-o no bolso.
Tenho de deitar esta porcaria fora quando virar a esquina”, pensou.
Mas não o fez. Esqueceu-se. Só quando regressava a casa, novamente de transportes públicos, é que notou que ainda estava em posse daquele objecto. [Simplifique] Como estava aborrecido – como a maioria das pessoas que anda no Metro de Lisboa costuma estar – decidiu lê-lo.
Grande Mestre Mamadu Embaló…leu para si, “isto começa bem”, pensou.Sua mulher anda a trair você. Contacte nós para resolver seu problema”.
João sabia, obviamente, que aqueles “grandes mestres, videntes, médiuns, feiticeiros e afins” faziam mirabolantes promessas que, grosso modo, se resumiam resumidas a ensaios de comicidade em formato 12x7, mas a sua faceta de inquiridor foi despertada por tão lacónica mensagem.
“Anabela? Já chegaste?”  , perguntou João, fechando cuidadosamente a porta de casa.
Silêncio. Ao longe, João apenas ouvia o irritante zumbido que a arca congeladora caprichosamente fazia de vez em quando. Já no quarto, trocou os seus mocassins por uns chinelos, e pôs-se confortável. Ao caminhar em direcção à casa de banho, porém, lembrou-se do que lera.
Impossível… deixa-te de coisas”, ordenou a si mesmo.
Mas aquele pensamento não o abandonava. Era como o barulho da sua arca [de quem mais seria a arca?] : não matava mas moía. Decidiu, então, tomar medidas para apaziguar a mente. Procurou por indícios de uma traição, de qualquer elemento que o pudesse induzir a levar a sério uma narrativa tão descabida. Nada na mesa-de-cabeceira. Nada na cómoda. Abriu o guarda-fatos.
“Oh, meu Deus!”, exclamou, completamente surpreendido pelo que estava a observar. “Como é que é possível ela ter tantas malas? Mas para que é que ela quer ela isto tudo?!”, reflectiu, indignado.
Ao terminar de arrumá-las no sítio original, uma por uma, suspirando de alívio – e simultaneamente frustração -, ouviu a chave rodar no canhão da porta.
“Porra!”
Fechou a porta do guarda-fatos apressadamente, e sentou-se na cama, arrumando o relógio de pulso e os anéis que trazia sempre consigo na gaveta da mesa-de-cabeceira. [Se fosse pertinente, não é, tivesse dado antes o raio da informação…]
“Olá querida! Como correu o dia?”, questionou, procurando ou distrair Anabela – ou aborrecê-la de morte – com conversa de circunstância.
“Eh, bem”, retorquiu a sua mulher, claramente sem vontade de desenvolver esta resposta. “Vou tomar um duche. Precisas de ir à casa de banho?”
“Não, querida. Está à vontade,” assegurou o desconfortável marido, ainda corroído por ter vasculhado os pertences da sua esposa.
João ouviu a água correr. Suspirou novamente. Olhou em seu redor e viu-o. Mais um dos cismas de Anabela, ali, à sua mercê. O seu iPhone 5, ainda a cheirar a novo, certamente seria a derradeira prova de que ela não o estaria a trair. Ou então, quiçá, o testemunho de uma traição que duraria sabia lá ele há quanto tempo.
Isto é errado… é ir longe demais… é o seu telemóvel… são as suas mensagens pessoais, a sua conta de correio electrónico, é…”, e parou. Sabia o que tinha de fazer para não ficar a matutar o resto do dia.
Novamente nada. Completamente limpo. Nada de e-mails pessoais suspeitos, ou de mensagens íntimas com um colega de trabalho. Nada de nada.
Contudo, João intuiu que a ausência de qualquer prova não significava que Anabela se encontrava absolvida do crime que estava a congeminar na sua cabeça. Pelo contrário, não ter encontrado o que quer que seja fosse apenas o deixou mais inquieto.
“É impossível… está tudo demasiado… perfeito”, concluiu.
Procurou um jornal recente, que ainda não tivesse posto na reciclagem, e folheou-o freneticamente até chegar à secção de classificados.
«Diamantino Neto. Detective privado, com 20 anos de experiência. Não deixe para amanhã o que pode saber hoje». “É isto!” , soltou sem pensar.
A água do duche parou. João ouvia a mulher a arrumar o champô e o gel de banho. Tinha pouco tempo. Em passo apressado, dirigiu-se até à sala, e discou o número o mais depressa que pôde. Combinou encontrar-se com o detective no dia seguinte, para lhe explicar o que pretendia. Parágrafo: E assim fez. Partilhou as suas suspeitas e só não lhe contou que estas começaram de maneira aparentemente aleatória e sem razão aparente.
Tinha de esperar. Oito dias foi o prazo que o detective deu. Após esse período, encontrar-se-iam e ser-lhe-ia comunicado o que o profissional descobrira. Foi a semana mais longa que João passara. Tentava falar normalmente com a mulher, mas tornava-se difícil disfarçar as suas suspeitas. Mais difícil ainda seria explicar-lhe o porquê delas existirem em primeiro lugar. Até que chegou o dia.
“Tenho boas notícias, Doutor”, avançou Diamantino, sorridente.
João não respondeu. Engoliu em seco e fez sinal com a cabeça para Diamantino continuar.
“Bem, a verdade é que, das duas uma, ou a sua mulher não tem um caso, ou devia dar um curso de como o esconder… porque digo-lhe, não encontrei absolutamente nada que apontasse nessa direcção”, concluiu.
João suspirou de alívio.
“Isso é bom, não é?”, interrogou.
“É, diria que não tem nada com que se preocupar”, retorquiu afoitamente o detective.
Nessa tarde, quando João chegou a casa, ainda vazia, pôde voltar a ser um simples e plácido investigador de História, já que a sua história tinha pouco mais a dar. Ao deitar-se, nessa noite, desabafou com a sua esposa, e semeou um pouco de honestidade.
“Sabes, acreditas que julguei que estavas a ter um caso? Eu sei, eu sei… absurdo… devia ter-te perguntado logo”, argumentou João, algo atrapalhado, sem saber como desenvolver o assunto.
“Nem me apercebi… mas, tás parvo?”, contestou impacientemente Anabela.
“Então… não tens um amante?” perguntou João, receosamente.
“Não, João Manuel, não tenho”, negou Anabela, revirando os olhos.
João deu as boas noites à esposa, deitou-se de lado e adormeceu tranquilo pela primeira vez em mais de uma semana. Anabela imitou-o, excepto na parte do adormecer. Quando ouviu os primeiros roncos do marido, alcançou o telemóvel cuidadosamente, e enviou uma mensagem de texto, apagando-a de seguida.
«Dorme bem, Diamantino. Mal posso esperar por 5ª. Bjs».



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