A Francesa
(ou uma memória de infância)
Há pessoas de quem não nos esquecemos.
Algumas delas, talvez pela fase da vida em que as conhecemos, ficam guardadas ad eternum num cantinho recôndito da
memória.
É o caso da Francesa.
Não sei ao certo que idade é que eu
tinha, mas sei que era ainda muito nova. Ainda menos sei a idade que ela teria,
mas calculo que fosse já
muito velha, pelo menos para a tenra idade que reconheço agora que era a
minha, em que todas as pessoas que tivessem mais de quarenta anos eram inquestionavelmente
velhas.
Talvez eu não tivesse mais do que sete ou
oito anos. Talvez ela tivesse entre sessenta e setenta, o que para mim a fazia
velhíssima!
A Francesa era diferente de todas as
velhas que eu conhecia. E eu conhecia muitas, acreditem!
Para além de ser francesa, o que a
tornava única no bairro, era mais alta e mais magra do que todas as demais e
não se vestia de velha, o que era raro para a época. Isto é, não usava daquelas
saias direitas de fazenda escura, - preta, castanha, cinzenta ou azul – que
todas as minhas avós, tias, madrinhas e vizinhas usavam.
Nem calçava sapatos confortáveis para ir
ao café, à praça, à mercearia do Armando ou ao talho do Sr. Joaquim.
Sei que a Francesa ia a cafés, mas não
sei porquê não a imagino sequer na praça a escolher feijões, nem a comprar
queijo fatiado na mercearia ou ainda a pedir lombo de vitela ao Sr. Joaquim.
Mas, voltando às saias, as da Francesa
eram fluidas, de cores muito claras no Verão, e de cores fortes, por vezes
mesmo berrantes, no Inverno. E tinham o condão de condizer sempre com os
casacos, da mesma cor e tecido. A mim, parecia-me roupa de festa. Roupa para
fazer sonhar.
Os sapatos eram de saltos finos e
vertiginosos. (Se calhar era por isso que a mim ela me parecia tão alta! Ou era
eu que era então muito pequena? Não sei, mas qualquer uma das hipóteses é
bastante plausível).
E também não descurava as malas, sempre
pequeninas, como se estivesse a caminho de uma qualquer embaixada, para um
evento decerto muito importante.
O cabelo era de um louro muito claro,
tingido, sempre apanhado numa banana, por ganchos invisíveis, como nenhuma
outra velha no bairro usava. Nada parecido com o das minhas avós, bem mais
curto e escuro, mesclado com os brancos que ficavam por pintar, - quando os afazeres familiares
espaçavam as idas ao cabeleireiro -, e armado por uma laca cujo cheiro intenso
jamais hei-de esquecer.
Era essa beleza, mas sobretudo a
singularidade que me deixava sempre atenta, curiosa. Pensava que quando fosse
velha iria ser assim e não como qualquer outra das velhas que eu conhecia.
Mas, a Francesa era também inconfundível
porque fumava, e fumava muito, o que era caso raro no bairro entre as mulheres
que tinham na altura mais de 60 anos.
Acresce ainda, que esta não tinha
qualquer pudor em ir para o café sozinha, beber uma bica pela manhã e uma
cerveja à tarde, se o calor assim o pedisse, enquanto lia alto alguns jornais,
comentando em murmúrio indecifrável e afrancesado quando as noticias a
irritavam.
Dizia-se à boca pequena que
ocasionalmente pedia um cognac.
Acho que nenhuma das velhas da minha
família alguma vez bebeu uma cerveja. Muito menos cognac, se é que sabiam o que era. Uma taça de champanhe em
ocasiões especiais, era tudo o se permitiam.
E também raramente liam jornais. Só se
alguma notícia revestia tamanha gravidade é que elas arrancavam
despudoradamente das mãos dos maridos o jornal, para se deleitarem em voz alta
(e quase soletrada) com tamanha tragédia que se tinha abatido sobre fulano ou
beltrano. Quanto maior a tragédia, maior o deleite, claro está!
Por vezes, também recorriam ao jornal
com mais serenidade, mas aí o objectivo era saberem o que é que a televisão ia
dar nessa noite, a seguir à novela, depois de a cozinha já estar toda
arrumadinha, como se impunha.
Confesso que ainda hoje não sei como é
que não sabiam de cor a programação, já que só existiam dois canais!
Em seguida lavavam as mãos, porque, como
toda a gente sabia, os jornais, tal como o dinheiro, eram uma grande porcaria,
que mascarravam imenso as mãos, os sofás e as toalhas de linho das mesas das
salas de jantar...
Mas, voltando à Francesa, há que dizer
que os homens do bairro sabiam-na diferente do que tinham em casa, por isso não
lhe davam muita conversa, até porque muitos sentiam-se incomodados pelo forte
cheiro do tabaco “estrangeiro” que fumava, indubitavelmente muito mais poderoso
do que aquele que eles consumiam, mesmo quando trazido de Badajoz ou de Ayamonte,
o que também acontecia com alguma frequência.
Outros diziam: - “É maluca, coitada!”
Não sei se ela era de facto maluca ou
não, mas sei que era a única velha a quem eu achava alguma piada, ao ponto de
querer um dia ser uma velha igual a ela. E eu, tirando a “Mulher Maravilha” que
nos visitava aos Sábados à tarde na RTP, não me queria parecer com mais ninguém!
A
Francesa aparecia quase sempre sozinha. Se era viúva ou divorciada, ninguém
sabia. Pelo menos, ninguém que eu conhecesse, o que até era bastante
compreensível, porque isto de falar com pessoas “diferentes”, não era
decididamente para todos.
Sabia-se apenas que em tempos idos, tinha havido um francês na vida da
francesa, uma vez que ela tinha três filhos, todos franceses e já adultos.
Estes raramente apareciam pelo bairro e tinham também eles um aspecto
“diferente”.
Do mais velho dizia-se que ele se apresentava
como sendo actor, mas uma vez que nunca ninguém tinha visto qualquer
representação sua, o que o mesmo deveria ser na realidade era um grandessíssimo
calão, que não queria ter um emprego certo e trabalhar.
Da “do meio” sabia-se que vivia com um rapaz
português de quem tinha tido duas crianças, uma a seguir à outra, quando já
tinha conseguido emprego numa loja de roupa de um centro comercial todo
modernaço - de autoria de um arquitecto também ele todo modernaço - que acabara
de abrir em Lisboa.
Relativamente ao mais novo, era o único
do qual se falava com algum acerto, uma vez que, segundo a minha avó, o aspecto
do rapaz não deixava margem para dúvidas: era homossexual! “Maricas”, como
diziam as velhas. Tinha um desses cursos superiores ligados às artes, em que
ninguém sabia ao certo para o que é que servia e que deixava a toda a geriatria
do bairro o desconforto de não saber identificar-lhe a profissão.
Não obstante a prole, e tal como já
disse, a Francesa aparecia mais vezes sozinha do que acompanhada. Sempre
elegante, sempre vertiginosa, sempre “diferente”.
Apesar da sua idade, a rua dos cafés
iluminava-se verdadeiramente com a sua chegada, que se deixava anunciar pela
música dos saltos vertiginosos. Era ela quem pintava a rua de cor, conforme o que
vestia, chamando o Verão. Amarelo, pêssego, rosa claro, verde água, azul céu. E
parecia mesmo que o chamava porque, curiosamente, não guardo qualquer memória
de a ter visto num dia cinzento ou chuvoso. Quanto mais esvoaçantes fossem os
tecidos, mais leve ela se tornava, dando mesmo a impressão que voava, não fora
o som inconfundível dos seus passos.
Passaram-se vários anos. Muitos, para
mim, já que deixei de ser tão pequena e de achar que os outros eram todos muito
altos.
Há dias, num dos almoços mensais de
Domingo em casa da única avó que me resta, falava-se de imigração, do
“fenómeno” que tinha assolado o bairro, em que a mercearia do Armando dera
lugar a uma parafarmácia em que todas
as empregadas tinham sotaque brasileiro, e em que nos cafés as empregadas que
não eram brasileiras, era porque eram ucranianas ou moldavas. Isto, já para não
falar que após a morte do Sr. Manel, único jardineiro e sucateiro do bairro
durante anos, os jardins ficaram entregues nas mãos de sujeitos altos, de olhos
claros, cujos nomes eram Boris, Iuri ou Nicolai.
Mas, o cúmulo dos cúmulos, afirmava a
minha tia, era o facto do talho do Sr. Joaquim ter sido “trespassado” para uma
loja de chineses, onde, bem vistas as coisas, até se podia comprar este mundo e
o outro por dois euros, o que, convenhamos, dá muito jeito às velhas, agora
ainda mais velhas, com pensões de viuvez miseráveis.
A páginas tantas, um tio que já dobrara
a casa dos oitenta e muitos, afirmou com indisfarçável saudosismo, que só lhe
era permitido, dado o avançado da idade, lembrar-se ainda dos tempos em que não
havia qualquer estrangeiro a residir no bairro.
E foi aí que eu me lembrei dela e num
ímpeto, perguntei: -“Ó avó,
e a francesa? O que é feito dela? Nunca mais a vi!”.
A minha avó, continuando a servir o
arroz doce, enchia tacinha após tacinha, enquanto murmurava: -“Vamos lá ver se
desta vez ficou bom, porque o gás acabou-se-me a meio e o Augusto nunca mais
substituía a botija…” – afirmou, lançando um olhar de censura ao meu avô, que
só miraculosamente podia ainda com uma botija, depois de tanta operação à
coluna.
Feito o reparo, lá se dignou a dizer,
entre taças: “- A francesa? Ó filha, não te contei já? Coitada, vê lá tu que o
fumo matou-a, faz dois anos no Natal!”.
“- Já? Dois anos?” - perguntou o meu avô,
incrédulo com o passar do tempo.
– “No Natal homem, no Natal é que faz
dois anos, não é agora!”, - corrigiu-o a minha avó com prontidão, insatisfeita
com a desatenção dele ao que tinha acabado de dizer.
“-Lembro-me
perfeitamente...” - continuou – “porque era véspera da véspera de Natal e
estava um frio horrível e chovia a potes. Até houve cheias e tudo,
lembram-se?”, - indagou por breves segundos os comensais, sem dar tempo para
que lhe respondessem, atacando logo em seguida: - “…e eu estive mesmo quase
para não ir ao funeral, (até porque tinha ainda tanta coisa para fazer... vocês
lembram-se, o Natal de há dois anos foi passado cá em casa...), mas a Dona
Hermínia, coitadinha, que também já se foi – Deus tenha a sua alma! (suspirou a
minha avó, benzendo-se com a colher de pau com que servia o arroz doce), -
“...depois lá me convenceu, porque a
mulher tinha morrido com um cancro e ninguém está livre disso na nossa idade e
porque a família em Portugal era muito pequena e era muito triste a mulher morrer
e não ter quase ninguém a ir ao funeral dela, etc., etc., etc., e então lá
fui eu, toda enchouriçada e com a gabardine que o Augusto me ofereceu nos
saldos da Loja das Meias”, afirmou, lançando novo olhar ao meu avô, carregando
na palavra “saldos” - “-E afinal... , quando chegámos ao cemitério parou
repentinamente de chover e fez um calor enorme, enorme, que parecia que
estávamos no Verão, de tão abrasador que estava o sol, que não se aguentava! E
eu sem sítio para pousar os casacos, o guarda-chuva e a gabardine... Foi de tal
forma, que até me senti mal..., por isso sei muito bem quando foi!”, - rematou,
olhando o meu avô e os demais presentes com o olhar que usa sempre quando quer
que toda a gente se certifique que ainda está muito lúcida.
Posto isto, pôs-me uma taça de arroz
doce à frente.
Nem quero saber como é que teria ficado
se o gás não tivesse faltado a meio...!
Sónia
Sousa Bártolo.
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