Veredicto: Uma bela história com um
belo final. Todo o 1º parágrafo é desnecessário ou pode ser encurtado ao
conflito canja/maquilhagem.
Já na rua, Helena recebeu com agrado a aragem fresca
daquela manhã de abril. Correu para apanhar o comboio que a levava diariamente
até Lisboa. Mal tinha pisado a plataforma, ouviu anunciar o comboio que
chegava. Entrou, sentou-se e olhou através da janela. Apesar dos quarenta e
cinco anos feitos em fevereiro último, Helena
continuava a ser uma bela mulher. Entre os colegas de trabalho era
conhecida como a Sandra Bullock do sítio. [Boa
aplicação da técnica Elmore Leonard. J] Helena sorria e
agradecia intimamente o elogio.
Estava cansada e ainda não eram 8 horas da manhã. Antes
de sair, como sempre, desde há cinco anos, Helena preparara o almoço para a
mãe, octogenária e vítima de demência senil. Separara os medicamentos matinais,
confirmara que a chave estava no lugar, para que a empregada entrasse mais
tarde. Helena e a mãe viviam em apartamentos contíguos. Em toda esta azáfama
matinal, mãe e filha não trocavam uma palavra. Helena entrava, seguia a sua
rotina diária e saía, sempre em silêncio. Depois, só depois ia à sua vida.
Helena crescera sem
verdadeiro materno ?? ou este estava
tão mascarado de violência que o sentimento que nutria pela mãe era um misto de
medo e ódio. Já casada, a mãe revelara-se um verdadeiro obstáculo, querendo
controlar a vida da filha e do genro. Desde as pequenas coisas até aos assuntos
mais importantes. O jovem casal maldizia o dia em que, cedendo ao choro
histérico de dona Custódia, concordara
em que ela ficasse a viver lá em casa. [Bom]
Afinal, era uma mulher só, sem marido e Helena era a sua única filha. Um dia, o
marido de Helena obrigou-a a decidir – ficar com a mãe ou segui-lo. Foi então
que Helena tomou a decisão de procurar dois apartamentos, um para o casal e os
dois filhos entretanto nascidos, e outro para a mãe de Helena. Assim
permaneciam até ao presente.
Por vingança, dona Custódia dirigiu-se ao banco e
retirou todo o dinheiro da conta conjunta que tinha com a filha todo o dinheiro que possuía.
À porta da filha de
Helena apareceu, durante longo tempo, uma palavra escrita com a giz: “Cobra”.
Helena apagava hoje e amanhã no dia seguinte estava
lá estava de novo este
o cartão de boas-vindas. Seguiam-se discussões
violentas entre ambas. Com o tempo, Helena deixou de entrar em casa da mãe até
que, um dia, esta ficou doente. Operada de urgência a um cancro no pâncreas,
sobreviveu miraculosamente e recebeu de Helena todo o apoio. Visitas diárias ao
hospital, acompanhamento a tratamentos. Tudo. E dona Custódia parecia ter
ficado mais macia face à eminência da morte; mas, uma vez recuperada, e porque
passara a pernoitar em casa da filha, voltou a causar a discórdia, querendo
toda a atenção para si e interferindo nas decisões do casal. Na sua vilania chegou ao cúmulo de dizer ao genro que a
filha o andava a enganar com outro homem e que o melhor que ele fazia era
deixá-la. [Bom]
Um dia, não suportando mais os desaforos da mãe,
Helena, disparou:
— A mãe já está melhor. Já consegue fazer as suas
coisas. Está na hora de voltar para sua casa.
— Grande puta. [A mãe diz assim?] Andei
eu a criar-te para agora me pores na rua. Não vales nada. És mesmo como o teu
pai. Não sei porque não te levou ele. Estão bem um para o outro. Ele só gostava
de putas e tu és uma. – ripostou a velha,
enfurecida. [Sabemos que foi ela.]
— Pare de me ofender! Eu já não tenho medo das suas
ameaças. Ou ainda me quer pôr os pés na barriga? – gritou
Helena, um pouco alterada. [Princípio de
economia]
— Não digas mais que és minha filha. E escusas de ir
lá a casa. Posso morrer lá como um cão, mas não te quero lá. E tudo o que tenho
não te irá parar às mãos.
Nesse dia mesmo mesmo dia, dona Custódia passou a viver na sua casa.
Sozinha, outra vez. Com a passagem do tempo, a sua condição psíquica
deteriorou-se. Demência senil. Já não
sabia cozinhar, deixava o fogão ligado até o tacho arder, não tomava banho, não
mudava de roupa. Disse o psiquiatra a Helena: dantes as pessoas não viviam
tanto tempo, por isso estas doenças não existiam. E o pior é que, com o passar
do tempo, tudo o que há de pior nestas pessoas acentua-se.
Helena engoliu
as mágoas e a revolta, passando a deixar a comida para a mãe, feita antes de
sair para o emprego, e a dar-lhe banho com regularidade, vigiando-lhe a higiene
pessoal. Contratara, também, uma empregada para cuidar dela na sua ausência. [Vírgulas cortam ritmo]
Helena vivia, desde então, dividida entre a piedade e
a revolta. Não se falavam. Não se tocavam. Havia dias em que a velha parecia
não a reconhecer e a sua condição física degradava-se.
Ô
O comboio chegava a Almada e ficava mais vazio, pois,
àquela hora, transportava muitos estudantes universitários que saiam ali.
Helena pôde finalmente esticar as pernas. O jovem
que viajara na sua frente era um dos que saíra. [Está implícito…] Voltou a olhar através da janela. À
sua direita, estendia-se um espetacular manto azul, o Tejo, entrevisto por
entre os pilares da Ponte 25 de Abril. Helena mergulhou, de novo, nos seus
pensamentos. A beleza do lugar, aquele rio tão inspirador, visto assim de tão
alto, ajudaram-na a tomar uma decisão: naquele dia, quando regressasse a casa,
iria ter uma conversa com a mãe. Queria pedir-lhe desculpa por algumas palavras
mais amargas que lhe dirigira, ao mesmo tempo que queria algumas explicações.
Helena desejava uma reconciliação com a mãe e com o passado.
O dia custou a passar. De regresso a casa, Helena
ensaiava as palavras que diria à mãe:
— Mãe, vamos
parar com esta infantilidade. A mãe agiu comigo, tanto em criança como em
adulta, de uma forma que condeno, mas é minha mãe. Nós podemos mudar as
coisas...
Foi com estes pensamentos que Helena abriu a porta do
apartamento da mãe e chamou:
— Mãe?
Apenas se ouviu
o silêncio.
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