quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Revisto 2: Regina Gaspar Amor Adiado

Veredicto: Uma bela história com um belo final. Todo o 1º parágrafo é desnecessário ou pode ser encurtado ao conflito canja/maquilhagem.

Frente ao grande espelho da entrada, Helena dava os últimos retoques na maquilhagem, antes de sair. Mais um pouco de bâton cor de rosa, sempre bâton cor de rosa. Mais uma passagem de rímel. Mais um ajeitar de cabelos.  Mais uma aspersão de perfume francês.  Abriu a mão direita em frente ao nariz, fazendo um trejeito de contrariedade. Cheiro de comida. Canja. A canja de que a mãe tanto gostava e que deixara há pouco em cima da mesa da cozinha dela. Dirigiu-se com ar aborrecido à casa de banho, onde lavou demoradamente as mãos, enquanto observava distraidamente as unhas bem pintadas. Unha francesa, não muito longa. Voltou à entrada, pegou num saco de pele genuina castanha, que colocou ao ombro, e saiu.
Já na rua, Helena recebeu com agrado a aragem fresca daquela manhã de abril. Correu para apanhar o comboio que a levava diariamente até Lisboa. Mal tinha pisado a plataforma, ouviu anunciar o comboio que chegava. Entrou, sentou-se e olhou através da janela. Apesar dos quarenta e cinco anos feitos em fevereiro último, Helena continuava a ser uma bela mulher. Entre os colegas de trabalho era conhecida como a Sandra Bullock do sítio. [Boa aplicação da técnica Elmore Leonard. J] Helena sorria e agradecia intimamente o elogio.
Estava cansada e ainda não eram 8 horas da manhã. Antes de sair, como sempre, desde há cinco anos, Helena preparara o almoço para a mãe, octogenária e vítima de demência senil. Separara os medicamentos matinais, confirmara que a chave estava no lugar, para que a empregada entrasse mais tarde. Helena e a mãe viviam em apartamentos contíguos. Em toda esta azáfama matinal, mãe e filha não trocavam uma palavra. Helena entrava, seguia a sua rotina diária e saía, sempre em silêncio. Depois, só depois ia à sua vida.
Naquele dia [vírgula a fazer par com a próxima ou corta] como acontecia frequentemente, enquanto o comboio devorava os quilómetros que a separavam da capital, Helena deixava ou-se invadir pelas memórias do passado. O pai abandonara a mãe, quando ela tinha Helena dois anos. A mãe tornou-se (ou já seria?) uma mulher dura, sem sorrisos ou carinhos. O único método de educação que conhecia e que Helena sentira na pele era baseado na austeridade e na punição física e psicológica. Por vezes, Helena parecia sentir ainda no corpo as vergastadas e na alma a ameaça: “Ponho-te os pés na barriga, que te rebento.” Por vezes, a mãe dizia: “Se não fosses tu, minha pindérica, eu ainda estava com o teu pai, ou então ia ter com ele à França. Agora, assim, com este emplastro... Desgraçaste-me a vida”.
Helena crescera sem verdadeiro materno ?? ou este estava tão mascarado de violência que o sentimento que nutria pela mãe era um misto de medo e ódio. Já casada, a mãe revelara-se um verdadeiro obstáculo, querendo controlar a vida da filha e do genro. Desde as pequenas coisas até aos assuntos mais importantes. O jovem casal maldizia o dia em que, cedendo ao choro histérico de dona Custódia, concordara em que ela ficasse a viver lá em casa. [Bom] Afinal, era uma mulher só, sem marido e Helena era a sua única filha. Um dia, o marido de Helena obrigou-a a decidir – ficar com a mãe ou segui-lo. Foi então que Helena tomou a decisão de procurar dois apartamentos, um para o casal e os dois filhos entretanto nascidos, e outro para a mãe de Helena. Assim permaneciam até ao presente.
Por vingança, dona Custódia dirigiu-se ao banco e retirou todo o dinheiro da conta conjunta que tinha com a filha todo o dinheiro que possuía. À porta da filha de Helena apareceu, durante longo tempo, uma palavra escrita com a giz: “Cobra”. Helena apagava hoje e amanhã no dia seguinte estavaestava de novo este o cartão de boas-vindas. Seguiam-se discussões violentas entre ambas. Com o tempo, Helena deixou de entrar em casa da mãe até que, um dia, esta ficou doente. Operada de urgência a um cancro no pâncreas, sobreviveu miraculosamente e recebeu de Helena todo o apoio. Visitas diárias ao hospital, acompanhamento a tratamentos. Tudo. E dona Custódia parecia ter ficado mais macia face à eminência da morte; mas, uma vez recuperada, e porque passara a pernoitar em casa da filha, voltou a causar a discórdia, querendo toda a atenção para si e interferindo nas decisões do casal. Na sua vilania chegou ao cúmulo de dizer ao genro que a filha o andava a enganar com outro homem e que o melhor que ele fazia era deixá-la. [Bom]
Um dia, não suportando mais os desaforos da mãe, Helena, disparou:
— A mãe já está melhor. Já consegue fazer as suas coisas. Está na hora de voltar para sua casa.
— Grande puta. [A mãe diz assim?] Andei eu a criar-te para agora me pores na rua. Não vales nada. És mesmo como o teu pai. Não sei porque não te levou ele. Estão bem um para o outro. Ele só gostava de putas e tu és uma. – ripostou a velha, enfurecida. [Sabemos que foi ela.]
— Pare de me ofender! Eu já não tenho medo das suas ameaças. Ou ainda me quer pôr os pés na barriga? – gritou Helena, um pouco alterada. [Princípio de economia]
— Não digas mais que és minha filha. E escusas de ir lá a casa. Posso morrer lá como um cão, mas não te quero lá. E tudo o que tenho não te irá parar às mãos.
Nesse dia mesmo mesmo dia, dona Custódia passou a viver na sua casa. Sozinha, outra vez. Com a passagem do tempo, a sua condição psíquica deteriorou-se. Demência senil.  Já não sabia cozinhar, deixava o fogão ligado até o tacho arder, não tomava banho, não mudava de roupa. Disse o psiquiatra a Helena: dantes as pessoas não viviam tanto tempo, por isso estas doenças não existiam. E o pior é que, com o passar do tempo, tudo o que há de pior nestas pessoas acentua-se.
 Helena engoliu as mágoas e a revolta, passando a deixar a comida para a mãe, feita antes de sair para o emprego, e a dar-lhe banho com regularidade, vigiando-lhe a higiene pessoal. Contratara, também, uma empregada para cuidar dela na sua ausência. [Vírgulas cortam ritmo]
Helena vivia, desde então, dividida entre a piedade e a revolta. Não se falavam. Não se tocavam. Havia dias em que a velha parecia não a reconhecer e a sua condição física degradava-se.

Ô

O comboio chegava a Almada e ficava mais vazio, pois, àquela hora, transportava muitos estudantes universitários que saiam ali. Helena pôde finalmente esticar as pernas. O jovem que viajara na sua frente era um dos que saíra. [Está implícito…] Voltou a olhar através da janela. À sua direita, estendia-se um espetacular manto azul, o Tejo, entrevisto por entre os pilares da Ponte 25 de Abril. Helena mergulhou, de novo, nos seus pensamentos. A beleza do lugar, aquele rio tão inspirador, visto assim de tão alto, ajudaram-na a tomar uma decisão: naquele dia, quando regressasse a casa, iria ter uma conversa com a mãe. Queria pedir-lhe desculpa por algumas palavras mais amargas que lhe dirigira, ao mesmo tempo que queria algumas explicações. Helena desejava uma reconciliação com a mãe e com o passado.
O dia custou a passar. De regresso a casa, Helena ensaiava as palavras que diria à mãe:
— Mãe, vamos parar com esta infantilidade. A mãe agiu comigo, tanto em criança como em adulta, de uma forma que condeno, mas é minha mãe. Nós podemos mudar as coisas...
Foi com estes pensamentos que Helena abriu a porta do apartamento da mãe e chamou:
— Mãe?

Apenas se ouviu o silêncio.  

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