sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Carla Martins, texto livre: O céu dos pardais

O Céu dos pardais



   Quando era criança, claro que não me passava pela cabeça entender o sentido da vida, no entanto, por vezes, dava por mim a tentar perceber o que era a morte. Esta minha curiosidade não era resultado de qualquer patologia ou trauma, era só a minha infantil necessidade de entender determinadas questões para as quais não sabia a resposta.
   Durante algum tempo acreditei que todos nós iriamos para um sítio idílico chamado Céu, mas esta justificação fez fervilhar novas questões - como seria o Céu, como íamos para lá, que acontecia quando lá chegávamos e o mais importante, onde ficava o Céu.
   As vítimas destes interrogatórios eram sempre os mesmos, os meus pais, que tentavam dar a resposta mais adequada para a minha pouca idade.
   A explicação para as minhas dúvidas sobre a morte e o Céu foram dadas pelo meu pai, que foi massacrado durante todo o jantar com questões metafísicas para as quais ele próprio não encontrava resposta.
   E assim aconteceu, eu tinha mesmo de saber onde ficava o Céu, porque só deste modo tudo iria fazer sentido no meu pensamento (na altura eu acreditava que sim).
E pergunto – então pai se o Céu existe, onde fica? E vamos todos para lá? E os animais também vão para o Céu?
Então o meu pai faz uma pausa, que para mim durou demasiado tempo, olha para a minha mãe que não sabe o que dizer e profere - cada um de nós tem o seu próprio Céu e os animais também
   Interpelo rapidamente - e onde fica?!
Então, - responde o meu pai completamente exausto - por exemplo, o Céu dos pardais fica na barriga dos gatos. E agora acaba de jantar.


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