O
Céu dos pardais
Quando era criança, claro que não me passava pela cabeça entender o
sentido da vida, no entanto, por vezes, dava por mim a tentar perceber o que
era a morte. Esta minha curiosidade não era resultado de qualquer patologia ou trauma,
era só a minha infantil necessidade de entender determinadas questões para as
quais não sabia a resposta.
Durante algum tempo acreditei que todos nós iriamos para um sítio
idílico chamado Céu, mas esta justificação fez fervilhar novas questões - como
seria o Céu, como íamos para lá, que acontecia quando lá chegávamos e o mais
importante, onde ficava o Céu.
As vítimas destes interrogatórios eram sempre
os mesmos, os meus pais, que tentavam dar a resposta mais adequada para a minha
pouca idade.
A
explicação para as minhas dúvidas sobre a morte e o Céu foram dadas pelo meu
pai, que foi massacrado durante todo o jantar com questões metafísicas para as
quais ele próprio não encontrava resposta.
E
assim aconteceu, eu tinha mesmo de saber onde ficava o Céu, porque só deste
modo tudo iria fazer sentido no meu pensamento (na altura eu acreditava que
sim).
E pergunto – então pai se o Céu existe, onde
fica? E vamos todos para lá? E os animais também vão para o Céu?
Então o meu pai faz uma pausa, que para mim
durou demasiado tempo, olha para a minha mãe que não sabe o que dizer e profere
- cada um de nós tem o seu próprio Céu e os animais também
Interpelo rapidamente - e onde fica?!
Então, - responde o meu pai completamente
exausto - por exemplo, o Céu dos pardais fica na barriga dos gatos. E agora
acaba de jantar.
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