sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Colectivo 1: Sónia Louro


Uma viagem antecipada

 

Da janela de casa, Francisco olhou para a rua. Reparou que ia chover. (Sónia Louro) Pensou então na sua esposa, que era florista na rua Augusta, e que sempre que chovia não só via o negócio murchar, como a saúde piorar. (Gonçalo Dias). “Broncoespasmos-pneumáticos”, diria Cecília com a sua voz doce como as rosas que vendia. (Pedro)

E vieram as saudades. Apertadas e gritantes. Uma dor. (Sofia)

O que fazer? O seu tempo estava a acabar, sentia-o. Em breve iria viajar no tempo e nunca sabia quando é que iria parar. (Ricardo)

Não era a morte que a assustava, mas sim o terror de um final lento com a perda progressiva de todas as faculdades. (Vera)

Francisco pensou num artigo que tinha lido há umas semanas numa revista de viagens. Foi tomado por um impulso. (Pedro F.)

Sempre sonhara viajar para o outro lado do mundo, mas nunca saíra de Portugal. Não obstante essa triste realidade tinha um mapa da Nova Zelândia na segunda gaveta da cozinha. (Sónia)

Levou o mapa na mão e apanhou o autocarro. Quando chegou à sala de quimioterapia, a sua cadeira estava ocupada… (Rute)

O médico oncologista disse-lhe: − O que é que faz aqui, homem? Aproveite e vá até à Nova Zelândia! Francisco não queria acreditar no que acabara de ouvir. (Luís Freire)

Perante as palavras do seu médico, Francisco voltou para casa, ligou o computador e comprou um bilhete de avião para a Nova Zelândia. (Catarina Lino)

Só voaria daí a cinco dias. Lado negativo? Tanto tempo de espera para alguém que já não tem tempo. Lado positivo? Iria consertar alguns erros que cometera nos últimos tempos. (Regina)

Então, lembrou-se de todas as coisas boas que tinha vivido ao longo da sua vida, os espaços maravilhosos por onde tinha deambulado, as pessoas maravilhosas que tinha conhecido. Apagou todos os advérbios de negação do pensamento e começou a sentir uma energia estranha… (Lourdes)

Não demorou muito até sentir vontade de se apaixonar. É isso que se faz quando viajamos. O resto são paredes. (Ricardo)

Pegou no bilhete. Olhou-o e num só gesto rasgou-o em metades. Depois pensou “para quê ir de avião daqui a cinco dias, se posso ir já hoje pelo meu pé?” (Vasco)

Mas primeiro, tinha que resolver aquele assunto pendente com Cecília, não podia adiar mais. (Carla)

Pelo seu pé, foi à florista. Pela sua cabeça decidiu acabar tudo e com o que restava do seu pulmão foi à descoberta, seguindo a linha do comboio. (Catarina?)

“E se a minha Cecília volta a ter broncoespasmos-pneumáticos?” (Elsa Caetano)

Depois lembrou-se: os mortos não têm broncoespasmos-pneumáticos. E ele, em breve, também já não teria dor nem saudade. Colocou-se no meio da linha do comboio e encarou de frente aquele ciclope de ferro que avançava ruidosa e vertiginosamente na sua direção. Dala a nada estaria na Nova Zelândia, pensou.

 

Sem comentários:

Enviar um comentário