Uma viagem antecipada
Da janela de casa, Francisco olhou para a rua.
Reparou que ia chover. (Sónia Louro) Pensou então na sua esposa, que era
florista na rua Augusta, e que sempre que chovia não só via o negócio murchar,
como a saúde piorar. (Gonçalo Dias). “Broncoespasmos-pneumáticos”, diria
Cecília com a sua voz doce como as rosas que vendia. (Pedro)
E vieram as saudades. Apertadas e gritantes. Uma
dor. (Sofia)
O que fazer? O seu tempo estava a acabar, sentia-o.
Em breve iria viajar no tempo e nunca sabia quando é que iria parar. (Ricardo)
Não era a morte que a assustava, mas sim o terror de
um final lento com a perda progressiva de todas as faculdades. (Vera)
Francisco pensou num artigo que tinha lido há umas
semanas numa revista de viagens. Foi tomado por um impulso. (Pedro F.)
Sempre sonhara viajar para o outro lado do mundo,
mas nunca saíra de Portugal. Não obstante essa triste realidade tinha um mapa
da Nova Zelândia na segunda gaveta da cozinha. (Sónia)
Levou o mapa na mão e apanhou o autocarro. Quando
chegou à sala de quimioterapia, a sua cadeira estava ocupada… (Rute)
O médico oncologista disse-lhe: − O que é que faz
aqui, homem? Aproveite e vá até à Nova Zelândia! Francisco não queria acreditar
no que acabara de ouvir. (Luís Freire)
Perante as palavras do seu médico, Francisco voltou
para casa, ligou o computador e comprou um bilhete de avião para a Nova
Zelândia. (Catarina Lino)
Só voaria daí a cinco dias. Lado negativo? Tanto
tempo de espera para alguém que já não tem tempo. Lado positivo? Iria consertar
alguns erros que cometera nos últimos tempos. (Regina)
Então, lembrou-se de todas as coisas boas que tinha
vivido ao longo da sua vida, os espaços maravilhosos por onde tinha deambulado,
as pessoas maravilhosas que tinha conhecido. Apagou todos os advérbios de
negação do pensamento e começou a sentir uma energia estranha… (Lourdes)
Não demorou muito até sentir vontade de se
apaixonar. É isso que se faz quando viajamos. O resto são paredes. (Ricardo)
Pegou no bilhete. Olhou-o e num só gesto rasgou-o em
metades. Depois pensou “para quê ir de avião daqui a cinco dias, se posso ir já
hoje pelo meu pé?” (Vasco)
Mas primeiro, tinha que resolver aquele assunto
pendente com Cecília, não podia adiar mais. (Carla)
Pelo seu pé, foi à florista. Pela sua cabeça decidiu
acabar tudo e com o que restava do seu pulmão foi à descoberta, seguindo a
linha do comboio. (Catarina?)
“E se a minha Cecília volta a ter broncoespasmos-pneumáticos?”
(Elsa Caetano)
Depois lembrou-se: os mortos não têm
broncoespasmos-pneumáticos. E ele, em breve, também já não teria dor nem
saudade. Colocou-se no meio da linha do comboio e encarou de frente aquele
ciclope de ferro que avançava ruidosa e vertiginosamente na sua direção. Dala a
nada estaria na Nova Zelândia, pensou.
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